
almoçamos no clube. domingo de rotina, daqueles que a gente entra no piloto automático mas que têm uma qualidade específica de conforto exatamente por isso.
e teve um momento que ficou.
o mizinho estava lá. ele é o dono do jornal onde eu comecei a escrever minha coluna semanal. o primeiro jornal, o que me deu o primeiro espaço pra ter voz regular, pra aparecer toda semana com alguma coisa a dizer. e ele me falou que eu melhorei. que minha coluna está melhor. que ele percebe uma diferença.
eu sorri. agradeci. e por dentro fiz aquela conta silenciosa de tudo que aconteceu nos bastidores que explica essa melhora, e que eu não vou detalhar aqui porque tem segredos que a gente leva consigo. o que eu posso dizer é que escrever todo dia, mesmo quando não tem nada pra contar, mesmo quando o dia foi normal demais, mesmo quando a cabeça está cansada e a sinusite está atrapalhando, muda alguma coisa. vai afinando. vai calibrando. vai tornando o processo mais natural, menos esforço, mais verdade.
o mizinho notou. e isso, de alguma forma, valeu muito.
de noite teve pizza na casa de amigos de amigos. um desses jantares que você vai sem expectativa grande e que acaba sendo gostoso exatamente por isso. minha mãe foi junto, e eu acho que ela se divertiu um pouco. o tipo de coisa que ela não vai admitir completamente, mas que aparece nos detalhes.
a observação da noite, no entanto, foi outra: treze garrafas de vinho.
eu e o john não bebemos. minha mãe, raramente. e os três ficamos ali, nessa posição muito específica de observadores sóbrios numa festa que foi ficando cada vez mais regada. e tem uma coisa sobre ser o sóbrio numa festa de treze garrafas que ninguém fala mas que todo mundo que já esteve nessa posição sabe.
você vê tudo.
você vê a conversa que começa séria e vai ficando cada vez mais filosófica sem motivo aparente. você vê a pessoa que estava tímida na primeira taça e está contando a história da vida na quinta. você vê os gestos ficando mais largos, as risadas mais fáceis, os argumentos mais convictos sobre assuntos que ninguém vai lembrar amanhã. e você fica ali, com seu suco ou sua água (eu sempre com uma coca zero, que fique claro), registrando mentalmente uma série de coisas que seriam completamente invisíveis se você também estivesse na quarta taça.
não é julgamento. é só observação. e observação sóbria tem uma nitidez que o vinho gentilmente remove de quem bebe. às vezes nem tão gentil.
minha mãe quis ir embora relativamente cedo. eu concordei imediatamente com a velocidade de quem estava esperando essa deixa. não deu pra sair de fininho, que é meu método favorito de saída em qualquer situação social desde que o tempo existe, já que a minha mãe estava junto e ela é do tipo que faz questão de se despedir de cada um dos presentes.
foi uma noite boa. simples, sem grandes eventos, sem nada que vire história pra contar por anos. o tipo de domingo que passa e deixa só uma sensação de que foi bom. especialmente porque teve pizza.
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