
acordei, tomei banho, e saí do banheiro igual um doido.
é assim que começa. o banho é o meu laboratório de ideias, coisa que já virei até tema de coluna semanal faz algumas semanas. não sei explicar a física disso, não sei o que acontece com o cérebro embaixo da água quente, mas é lá que as coisas se encaixam. o ruído para. a cabeça organiza. e de repente aquilo que estava confuso vira claro, aquilo que estava separado vira conexão, aquilo que eu ainda não sabia que queria fazer aparece pronto, com nome e endereço.
essa manhã eu fiquei pensando no john. não no drama que ainda estava por vir, mas na empresa de captação médica que ele tem há vários anos e que nunca teve uma estrutura digital de verdade. eu queria dar um corpo pra isso. instagram, site, identidade, presença. algo que fizesse o que ele já faz aparecer do jeito que merece aparecer.
saí do banho com uma lista mental e fui trabalhar.
o trabalho estava tranquilo. então me debrucei nisso. fiz o instagram da empresa dele do zero. criei, estruturei, pensei na identidade visual, nas primeiras publicações, no tom. ficou bem legal, se eu puder dizer isso sem soar arrogante, e eu posso porque é verdade.
depois fui pro site.
de manhã era só uma ideia no banho. de noite o site estava pronto e rodando. só faltavam pequenos ajustes, coisa mínima. instagram e site, do zero, em um dia. tempo recorde, diga-se de passagem. meu lado publicitário agradece quando tem espaço pra aparecer.
e enquanto eu fazia tudo isso, o john estava em preparo pra colonoscopia e endoscopia de amanhã.
antes de continuar, preciso estabelecer um contexto importante: o john não é uma pessoa dramática. ele mesmo diz isso. com orgulho, inclusive. ele não gosta de drama, não tem paciência pra drama, considera drama um desperdício de energia emocional.
anota.
porque hoje, por causa de uma dieta de preparo e uns copinhos de solução que qualquer pessoa que já fez colonoscopia conhece bem, ele protagonizou o maior drama da face da terra.
pior do que eu ontem. e eu ontem estava no nível jesus na cruz na escala oficial do meu irmão neurocirurgião.
ele ficava agindo como se não fosse sobreviver ao preparo. como se aquele dia fosse o último. como se a dieta restrita e o laxante fossem, de alguma forma, o encerramento de um ciclo. sendo que a taxa de óbito por causa do preparo de colonoscopia deve ser basicamente a mesma de alguém morrer abrindo a geladeira.
e o jeito que ele fazia isso era tão fofo, tão genuíno, tão completamente sem ironia, que eu não conseguia nem tentar ser sério. ficava rindo. daquele riso que vem do carinho, de quem está olhando pra alguém que ama sendo absolutamente dramático sobre uma coisa absolutamente normal e achando a cena a mais adorável do mundo.
eu olhava pra ele com aquela mistura de carinho e incredulidade de quem ontem estava sem conseguir sair da cama de dor e hoje estava assistindo o marido sofrer por não poder comer normalmente.
a vida tem essas ironias. e eu aprendi a apreciar cada uma delas.
tem algo muito específico e muito bonito nessa cena, quando eu paro pra pensar. ele me salvou ontem com o coquetel breaking bad. eu fiz o instagram e o site dele hoje enquanto ele achava, com toda a sinceridade do mundo, que não ia sobreviver ao preparo de um exame.
é assim que a gente funciona. cada um no seu momento, cada um com o que tem pra dar. e no total, de alguma forma, as contas fecham.
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