dia 202/365.



tudo começou em 1986.

brincadeira. começou de manhã, quando eu estava saindo de casa e jurei que estava presenciando uma greve de motoboy. muitos, vários, concentrados numa área que parecia quase um estacionamento público improvisado bem na porta da minha casa. eu olhei, processei, e segui meu caminho sem entender muito bem o que estava acontecendo. só descobri depois que era uma distribuição gratuita daquelas bags de uma nova empresa de entrega de comida que jura que é melhor, mais barata, mais segura e que vai fazer sucesso depois de um aparente fiasco nos primeiros meses. mas alguns mistérios da vida urbana você aprende a não questionar.

trabalhei normal. mas desde que cheguei eu senti uma pontada de dor na cabeça.

nunca é um bom sinal.

minhas dores de cabeça muitas vezes começam assim. discretas, quase educadas, como quem não quer incomodar. às vezes elas somem, me deixam em paz, desaparecem sem deixar rastro. e às vezes elas vão aumentando gradativamente, com aquela paciência de quem tem tempo e sabe que vai chegar onde quer chegar.

dessa vez ela ficou ali. incomodando como quem não quer nada, não espera nada, só quer realmente atrapalhar.

e então, do nada, não bateu. espancou.

tomei remédio no trabalho. nada. encurtei as coisas, agilizei o que dava e fui pra casa mais cedo. o efeito do primeiro remédio já tinha passado, naturalmente sem ter feito efeito nenhum, porque seria simples demais funcionar. cheguei em casa, tomei outro e fui deitar.

capotei.

do nada eu acordo com uma pontada, uma dor latejante, mas num nível que eu só consigo descrever usando a escala do meu irmão mais velho, que é neurocirurgião e que classifica dor de um a dez sendo o dez reservado exclusivamente pra jesus na cruz. sério. é uma escala clínica oficial na cabeça dele. e a minha dor estava confortavelmente instalada nessa região do gráfico.

era tanta dor que eu queria ir pro hospital e não conseguia sair da cama. o john foi ficando levemente desesperado. por dentro. por fora ele está sempre pleno, porque ele tem esse dom específico de manter a fachada intacta enquanto o mundo desmorona internamente.

ele chegou com um pequeno coquetel farmacológico. uma coisa meio breaking bad, mas com a confiança do dr. house. eu olhei pra aquilo, confiei cegamente porque não tinha outra opção. ainda pensei: se eu morrer. tecnicamente foi por amor. tomei, e não sei mais nada.

isso eram vinte horas.

acordei às cinco da manhã. fui ao banheiro e quase dormi no tapete que estava mais perto. me arrastei de volta pra cama carregando a dignidade que eu ainda tinha, que era menos do que eu trouxe de volta de cuba. acordei às nove da manhã do dia seguinte ainda tentando entender o que tinha acontecido com minha vida nas últimas horas.

meu cérebro não virou uma gelatina. mas parece. enquanto não escorrer pela orelha ou algum outro orifício, eu considero que estou no lucro.

a dor? acho que ainda está aqui, em algum lugar, afogada nos comprimidos coloridos do coquetel do john que eu espero, sinceramente, que sejam ao menos lícitos. quando o torpor passar eu conto o que aconteceu.

se eu sobreviver, claro.


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