duas da manhã, cabeça acesa.

carta de domingo · 16 de agosto

oi.

esta carta sai dois dias depois do livro ter saído do papel e virado real. “duas da manhã” já está no mundo, fora do meu controle, sendo lido por gente que eu nunca vou conhecer. dá um friozinho na barriga que eu não esperava, uma mistura de orgulho com aquela vontade de revisar tudo de novo, mesmo sabendo que não dá mais. o texto de hoje é justamente o que abre o livro, e faz sentido você ler ele aqui, na sua caixa de entrada, do mesmo jeito que eu escrevi: de madrugada, sem plateia.

duas da manhã, cabeça acesa.

o corpo pede pra dormir e a mente ignora o pedido, como quem não escuta o próprio parceiro de cama de propósito, virando de um lado pro outro, fingindo que o cansaço vai vencer antes que os pensamentos apareçam. mas eles sempre aparecem. sempre. eu já conheço a sequência de cor: primeiro vem um assunto bobo, uma coisa prática do dia seguinte, um email que eu esqueci de responder. isso é só o batedor, o que vem na frente pra abrir caminho. atrás dele vem o resto da caravana, os assuntos de verdade, os que passaram o dia inteiro esperando educadamente a agenda esvaziar pra poder falar comigo a sós.

fico ali revirando pensamento que durante o dia eu consigo empurrar pra algum canto, entre uma reunião e outra, entre um texto e outro, entre a correria que preenche as horas de sol. e à noite eles saem todos da toca ao mesmo tempo, como se soubessem que essa é a única hora em que eu não tenho pra onde correr, porque estou sozinho com eles no escuro, sem trabalho pra usar de desculpa, sem tela pra usar de anestesia, só eu e o teto e o barulho da casa dormindo ao redor. e a madrugada tem uma acústica própria, ela amplifica tudo. a preocupação que de dia era um detalhe administrável vira, às duas da manhã, uma sentença. o erro pequeno de anos atrás volta em alta definição. a conversa que eu devia ter tido e não tive se reescreve sozinha, com falas melhores das que eu jamais teria dito. a mente de madrugada é uma editora sensacionalista: pega fatos comuns e imprime manchetes de catástrofe.

mesa de cabeceira à noite com um relógio marcando depois das duas, luz fraca de abajur contra um quarto escuro

o mais curioso é que eu já tentei de tudo contra ela. chá, respiração, aplicativo de meditação com voz de moça calma, contar coisas, largar o celular longe, e cada método funciona por umas duas semanas, que é o tempo que a minha cabeça leva pra aprender o truque e passar por cima dele. porque o problema, no fundo, nunca foi técnico. a insônia não é um defeito do sono, é um recado. é a cobrança de todas as conversas que eu fiquei devendo a mim mesmo durante o dia, com juros de madrugada.

é nessas horas que a solidão fica mais alta, quase um som físico, quase algo que eu poderia apontar no quarto se acendesse a luz. e eu percebo, nessas madrugadas, o quanto eu preencho meus dias de gente e barulho só pra não precisar encarar esse silêncio específico, esse silêncio de duas da manhã que não perdoa e não distrai. duas da manhã é quando eu mais me conheço e menos me suporto, e ainda não sei o que fazer com essa informação, só sei que ela volta, semana sim, semana também, e eu vou aprendendo, aos trancos, a não ter tanto medo dela. ultimamente, em vez de brigar com a madrugada, eu tenho tentado negociar. deixo um caderno na mesa de cabeceira e, quando a caravana chega, eu anoto o que ela veio dizer, sem responder nada, só anotando, como quem recebe recado por debaixo da porta. de manhã, metade dos recados não faz mais sentido nenhum, e essa metade eu jogo fora com prazer. mas a outra metade, lida com sol, às vezes diz uma coisa que eu precisava mesmo ouvir. vai ver é isso que as duas da manhã são no fim das contas: o único horário em que eu atendo o meu próprio telefonema.

se você chegou até aqui às duas da manhã de verdade, sabe do que eu falo. responde esse e-mail, eu quero saber que horas a sua caravana costuma chegar.

e a novidade: “duas da manhã” já está à venda, o capítulo de hoje é o primeiro do livro. se ele te tocou, tem mais quinze esperando você.

rico


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