
passei o dia inteiro achando que era segunda-feira.
não foi um engano passageiro, desses que você corrige em dois segundos. foi uma convicção profunda, inabalável, sustentada ao longo de horas. eu podia jurar. tinha toda a certeza do mundo. era segunda. obviamente era segunda. eu passei o dia falando até amanhã pras pessoas do trabalho. todos ficavam me olhando com uma cara tipo: será que ele vem trabalhar amanhã? e eu não entendendo nada.
descobri isso quando alguém me desejou um bom fim de semana e eu quase entrei em colapso existencial.
claro, não era segunda.
era sexta. mas como no dia anterior eu tinha ficado em casa trabalhando de moletom fazendo companhia pro john, o meu cérebro executou uma operação de reinicialização e decidiu, por conta própria e sem consultar ninguém, que aquele era o começo de uma semana nova. eu tinha uma segunda na minha sexta. que é, convenhamos, o pior dos mundos possíveis. todo mundo sonha em ter uma sexta na segunda. eu consegui fazer o inverso. é um talento raro e completamente inútil. sempre quis colocar no linkedin mas não tenho certeza de qual categoria isso se encaixaria. provavelmente entre “habilidades interpessoais” e “segurar o choro em horário comercial”.
no final da tarde, eu e o john resolvemos tirar uma soneca.
simples. rápido. um descansinho antes do jantar.
acordamos com o telefone tocando.
existe um nível específico de pavor que só quem acordou assim conhece. não é susto. é a alma saindo do corpo, dando uma volta no quarteirão e voltando envergonhada.
era uma amiga dos nossos jantares de sexta ligando pra avisar que já estavam servindo à mesa. não pra perguntar se estávamos chegando. pra avisar que já estava servindo. que a comida estava na mesa. que o prato estava lá, esperando, ficando frio, enquanto a gente dormia com aquela profundidade de quem não tem compromisso nenhum na vida.
eu olhei pro john. ele olhou pra mim. os dois com aquela expressão específica de quem acabou de processar que dormiu mais do que o planejado e que agora precisa fingir que estava acordado há tempo suficiente pra ser considerado pontual.
nos levantamos, nos arrumamos no tempo recorde que só a culpa social consegue proporcionar, e fomos.
o jantar estava animado. a mesa bem cheia, aquela energia de gente que já está na segunda taça e que não vai deixar ninguém ficar quieto. acabou sendo uma boa noite, daquelas que você não planejava que fossem boas e que acabam sendo exatamente o que precisava.
mas eu não vou mentir. uma parte de mim ainda estava dormindo.
e ainda achava que era segunda.
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