
o john fez a colonoscopia e a endoscopia hoje cedo.
e ele não me deixou ir.
eu tentei. argumentei. fiz de tudo. mas ele tinha combinado com o pai dele, e o motivo pelo qual ele preferiu o pai ao marido foi, segundo ele mesmo, o medo de que eu acordasse cedo demais e passasse o resto do dia rosnando pras pessoas.
cedo demais tipo cinco e meia da manhã.
e olha, ele não está errado. ele me conhece. sabe exatamente o que acontece quando eu acordo nesse horário sem ter pedido, sem ter planejado, sem ter me preparado emocionalmente pra existir naquele momento do dia. é um risco real pra sociedade. o pai dele agradece sem saber que agradece.
fiquei em casa esperando notícias. e quando vieram, vieram assim: ele saiu da recuperação andando. mexendo no celular. olhou pro pai, falou vamos, e foi embora. como se tivesse saído de uma consulta de rotina. como se anestesia geral fosse uma sonequinha de tarde num domingo de inverno.
e aí eu precisei parar e contar a minha história.
porque eu já passei por anestesia. eu sei o que é sair da recuperação.
eu saí de cadeira de rodas.
chorando.
não um choro discreto, não uma lágrima elegante escorrendo pelo rosto de quem está emocionado. eu chorei igual recém nascido. aos gritos. com volume e comprometimento total. e no meio desse choro, com toda a convicção que uma pessoa semidrogada consegue reunir, eu peguei a médica pelo colarinho do jaleco, olhei bem no fundo dos olhos dela, e gritei: pelo amor de deus não me deixa morrer. eu sei que eu vou, mas não me deixa.
ela ficou me olhando.
eu continuei chorando.
ela provavelmente já viu de tudo na vida. mas eu me esforcei pra ser inesquecível.
saí grogue, parecendo que tinha sido baleado, com a dignidade inteiramente comprometida e a certeza de que aquela médica ainda conta essa história em jantares.
o john saiu andando e mexendo no celular.
somos pessoas muito diferentes.
mesmo assim eu passei o dia em casa, porque era pra fazer companhia pra ele. como se ele precisasse, né? o homem estava mais inteiro do que eu na maioria das minhas segundas-feiras. mas combinado é combinado. fiquei. trabalhei de moletom, que é o uniforme oficial de quem está em modo de cuidado mas sem muito o que cuidar.
ele cochilou um pouco durante o dia. e tinham prometido deixá-lo em paz. tinham dito, com todas as letras, que o dia seria tranquilo, sem demandas, sem trabalho.
o celular dele não parou.
eu olhava pra tela piscando e pensava: depois eu vou atrás de cada uma dessas pessoas. uma por uma. pra cobrar a folga que prometeram e não cumpriram.
eu não guardo mágoa.
eu guardo nomes.
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