
o john tinha marcado uma ressonância com contraste. dessa vez ele me deixou ir, porque era meio-dia. meio-dia já é um horário aceitável pra eu não morder ninguém. temos protocolos.
logo no começo ele precisou tomar uma garrafa pet de dois litros de algo levemente duvidoso que cheirava a gatorade de limão mas que eu prefiro não classificar mais do que isso. e precisava ser tomado andando. sim. andando. de um lado pro outro.
o problema é que o térreo do hospital não é grande. a parte acessível pra quem não trabalha lá é ainda menor. então ficamos indo e vindo pelo mesmo corredor, repetidamente, enquanto ele tomava aquilo aos goles e eu cumprimentava o segurança da porta. na primeira vez foi um bom dia educado. na segunda, um aceno. na quinta, eu já estava quase perguntando da família. na décima, éramos praticamente amigos. eu acho que ele me adicionou no instagram mental dele.
em algum momento parei numa máquina de autosserviço. queria uma água. vi uma schweppes citrus. eu não sou totalmente fã, mas às vezes a gente vê e fica com vontade, sabe? é uma coisa do universo. um chamado.
produto indisponível.
eu quase chorei. eu sei que sou um adulto. eu sei que sei lidar com frustrações. e eu lidei. fiquei pensando naquela schweppes por horas. por que eu não podia comprar? o que havia de errado com aquela máquina? com aquele hospital? com o universo? são perguntas que ficam.
almoçamos no clube, atrasadíssimos. do tipo que quando chegamos minha mãe já havia ido embora. pedi o prato de sempre porque já estavam até preparando. mas aí bateu aquela pontada de desejo de um x bacon. já que a schweppes tinha me negado, eu merecia alguma coisa. a moça resolveu fazer dois. um pra mim, um pro john.
eu falei: se ele não comer, eu como.
eu disse isso no auge da fome. sem pensar, sem noção alguma do tamanho do meu estômago, sem nenhum tipo de responsabilidade, maturidade ou consciência corporal. foi uma promessa feita por um homem faminto que subestimou completamente as próprias limitações físicas.
o prato chegou. eu comi como rotweiler. com toda a dedicação e comprometimento que a situação merecia. quando eu estava quase no final chegaram os lanches.
o cheiro.
meu deus, o cheiro. parecia que eu havia ficado amarrado três dias. eu mordia aquele x bacon como quem encontra algo sagrado depois de uma longa jornada. como quem chegou finalmente em casa.
em algum momento o estômago começou a entender o que estava acontecendo. o cérebro recebeu o alerta. devo imaginar que lá dentro foi algo como: gente, pera. o que tá acontecendo? seguido de um SOCORRO em caixa alta.
mas eu comi. esse foi o problema. eu comi o prato inteiro, os dois x bacons, e ainda tomei uma coca zero.
porque equilíbrio é tudo.
eram quase quatro da tarde quando saímos do clube. qualquer pessoa razoável chegaria em casa e diria: não janto. meu corpo agradece, minha alma descansa, a digestão que faça o que precisar fazer em paz.
de noite o joão, irmão do john, veio pra cá. e eu decidi fazer a picanha que eu havia comprado.
o bife chegou no prato parecendo um boi. não uma metáfora. o tamanho era de boi. pra acompanhar, um tagliarini com molho de vinho branco e manteiga. tinha um casal de amigos da minha mãe aqui também. mesa cheia, comida boa, aquela energia de noite que vai passando sem você nem perceber.
e eu comi.
o boi inteiro. meio quilo de massa. tudo.
eu não tenho mais salvação e eu sei disso. mas também tenho uma teoria sobre mim mesmo que foi se confirmando ao longo dos anos e que hoje eu posso afirmar com total convicção:
eu sou taurino de corpo, alma e estômago.
é signo. é destino. não tem o que fazer.
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