dia 99/365.



tem uma coisa curiosa que acontece comigo, e eu desconfio que não seja só comigo. quando as coisas começam a dar certo… eu não relaxo. eu estranho. fico meio desconfiado, como se tivesse alguma coisa fora do lugar. como se a vida estivesse silenciosa demais, organizada demais, gentil demais. e aí, ao invés de aproveitar, eu começo a esperar.

esperar o quê? alguma coisa dar errado, claro.

é quase automático. parece que existe um histórico interno que diz: calma aí, isso aqui não está normal. já já alguma coisa vai explodir. não sei o quê, não sei quando, mas vai. e o mais curioso é que não precisa ter nenhum sinal real disso. não precisa de problema no horizonte, nem de indício concreto. a mente simplesmente cria essa expectativa, como se estivesse tentando se antecipar a um desastre que nem foi marcado.

talvez seja um tipo de defesa. uma forma meio torta de tentar não ser pego de surpresa. como se, esperando o pior, eu diminuísse o impacto quando ele viesse. só que tem um detalhe meio inconveniente nisso tudo: enquanto eu estou ocupado esperando dar errado, eu não estou exatamente vivendo o que está dando certo.

eu fico em estado de alerta num momento que, teoricamente, era pra ser de tranquilidade. quase como alguém que recebe uma notícia boa e, ao invés de comemorar, começa a procurar onde está o erro.

e é meio irônico, porque quando as coisas estão difíceis, eu quero desesperadamente um pouco de paz. mas quando a paz aparece, eu trato ela como se fosse suspeita.

tipo alguém que pede silêncio e, quando ele vem, começa a perguntar: por que está tão quieto?

talvez a gente se acostume tanto com o problema, com a tensão, com a necessidade de resolver tudo o tempo todo, que o funcionamento normal passa a parecer estranho. como se a vida só fizesse sentido quando tem alguma coisa fora do lugar.

e aí, quando finalmente não tem… a gente inventa.

não um problema real, mas uma expectativa. uma ansiedade antecipada. uma sensação de que a qualquer momento alguma coisa vai dar errado, só porque, estatisticamente, sempre deu.

mas talvez nem sempre precise ser assim.

talvez exista um momento, mesmo que raro, em que as coisas simplesmente estão… bem. sem armadilha, sem reviravolta escondida, sem explosão programada.

e talvez o verdadeiro desafio não seja lidar com o caos, mas aceitar a calmaria sem achar que ela é o começo de um problema.

eu ainda não sei fazer isso direito.

mas hoje eu percebi que, talvez, nem tudo precise explodir. será?


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