dia 116/365.



a vida tem um jeito cruel de te lembrar do que você anda fingindo esquecer.

a cida partiu hoje.

uma senhora. uma amiga. uma conhecida. e talvez nem importe o rótulo, porque no fim a dor não pede credencial pra entrar. ela só entra. um pouco mais de um mês atrás, descobriu um câncer. hoje, acabou. é assustadoramente rápido o caminho entre uma coisa e outra. assustadoramente curto o intervalo entre o “estamos cuidando” e o “não tem mais o que fazer”.

e hoje o dia acabou assim. 23h30.

tem uma frase que eu já ouvi muitas vezes e que volta sempre nesses momentos: pra morrer, basta estar vivo. e é uma daquelas frases que parecem óbvias até virarem realidade na sua frente. aí elas perdem a leveza. aí elas pesam. porque a obviedade é justamente o que a gente vive negando todo dia, em pequenas escolhas, em pequenas pressas, em pequenas decisões adiadas pra “depois”.

a gente vive como se tivesse tempo. como se houvesse uma fila justa, ordenada, em que a morte respeita idade, ordem de chegada, gravidade. mas não respeita. ela aparece. às vezes anunciada por exames, às vezes sem aviso nenhum. e o que sobra pra quem fica é sempre a mesma coisa: a pergunta de tudo o que ainda dava tempo de fazer.

e essa pergunta, quando bate, não bate só pelos outros.

bate por você também.

eu pensei na cida o dia todo, mas pensei em mim junto. nas conversas que eu adio. nas pessoas que eu deveria ligar e não ligo. nos abraços que eu economizo sem nenhum motivo bom. nos “depois a gente se vê” que ficam pendurados no ar até virarem “não deu tempo”. é assustador o quanto a gente se acha eterno enquanto vive cercado de evidências do contrário.

e ao mesmo tempo, é mais ou menos necessário se achar eterno. porque se a gente parasse pra pensar todo dia que vai morrer, ninguém conseguiria sair da cama. então a gente esquece. é um esquecimento útil, quase um mecanismo de proteção. mas tem um preço. e o preço é justamente esse: ser pego de surpresa todas as vezes em que a realidade lembra a gente do que a gente sabe desde sempre.

a morte coloca tudo em perspectiva. não a morte abstrata, a dos noticiários, a dos números. a morte com nome. a morte de alguém que você cumprimentou, que você viu rir, que você ouviu falando sobre coisas pequenas como o tempo, como o preço de alguma coisa, como o filho, o neto, o domingo. a morte de quem era exatamente como você é agora: vivo, fazendo planos, achando que ainda tinha tempo.

e quando ela vai, sobra uma sensação estranha de que talvez a gente esteja organizando as prioridades erradas. que talvez a importância das coisas precise ser recalibrada. que talvez o que parece urgente não seja, e o que parece comum seja, na verdade, o que mais vale.

eu não sei se a gente consegue carregar essa lucidez por muito tempo. acho que não. a vida tem essa força gravitacional que puxa a gente de volta pro automático, pro pequeno, pro irrelevante disfarçado de prioridade. mas pelo menos hoje, por essa noite, eu queria deixar a lição respirar antes que ela seja engolida pela próxima semana cheia.

porque a cida não vai voltar. e amanhã pode ser qualquer um. inclusive eu. inclusive você que está lendo isso.

e talvez a única homenagem honesta que a gente possa fazer a quem vai embora seja não esquecer, ainda que por um instante, que a gente também é passagem.

que a vida começa e acaba, sim. mas no meio, entre uma coisa e outra, existe um espaço. pequeno, valioso, irrepetível. e o que a gente faz dele é, no fundo, a única coisa que vai sobrar quando a nossa vez chegar. descansa, cida. obrigado por, mesmo sem saber, ter me lembrado disso.


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