dia 126/365.



eu briguei com o john hoje. não foi briga gritada, dessas que pegam fogo. tecnicamente nem foi uma briga. foi pior, na verdade, porque foi daquelas em que alguém que te ama joga na cara coisas que faz por você. e isso tem um peso diferente. quando vem de fora, de uma pessoa qualquer, você consegue separar, consegue não levar tão a sério, consegue até rir depois. mas quando vem de dentro, de quem deveria ser refúgio, dói de um jeito que demora pra explicar.

eu não vou entrar muito nos detalhes do que foi dito, porque o detalhe importa menos. o que importa é o gesto. é a escolha de transformar uma discussão sobre o meu comportamento em uma lista de favores prestados. é como se a conversa, no meio do caminho, tivesse mudado de assunto sem aviso. começou em uma coisa e terminou em outra. e a outra coisa, a que ficou, foi exatamente o tipo de coisa que não devia entrar em uma briga, porque não combina com afeto. não se mistura. ou você ama, ou você cobra. as duas coisas no mesmo discurso fazem o ouvido fechar.

e eu fiquei puto. puto de verdade, sem maquiar. e ainda estou.

eu acho que tem uma cultura meio chata em volta da raiva, especialmente em ambientes mais espiritualizados, em que a gente se sente quase obrigado a passar por cima rapidamente. perdoa logo, não guarda, supera, deixa pra lá. como se sentir mágoa fosse, em si, uma falha de caráter. mas eu discordo. eu acho que tem uma honestidade enorme em deixar a mágoa estar ali, pelo tempo que ela precisa. magoar é reconhecer que aquilo importou. é dar peso ao gesto. é, na verdade, uma forma de respeito por si mesmo.

o que eu não quero, e isso eu acho que é o ponto mais importante, é virar refém da mágoa.

eu fiquei pensando nisso a tarde inteira. essa imagem de uma pessoa se afogando e tem aquela boia redonda que jogam no mar pra salvar. a boia serve pra ela se segurar até ser puxada de volta. ela não foi feita pra ser o destino. mas tem gente que se agarra naquela boia como se ela fosse a salvação eterna, e fica boiando ali, no meio do mar, achando que está bem porque não está afundando. quando, na verdade, está só preso. preso em um estado intermediário que não é nem se afogar, nem nadar, nem chegar à praia.

mágoa é mais ou menos assim. ela tem a sua função. ela te segura no momento em que você levou um baque, te impede de afundar de uma vez, te dá um respiro pra processar o que aconteceu. mas se você fica lá agarrado nela por tempo demais, ela vira o seu próprio mar. você esquece que tinha um destino em terra firme. esquece que existe uma vida do outro lado dessa sensação toda. e fica boiando, alimentando o ressentimento, transformando uma reação saudável em um estado permanente.

eu não quero isso. nem com ele, nem com ninguém.

mas eu também não vou apertar o passo só pra parecer um cara evoluído. vou sentir o que estou sentindo. vou ficar puto pelo tempo que precisar. vou processar aquilo que doeu, vou olhar com calma pra cada palavra, vou entender o que é meu nessa história, o que é dele, o que é de uma fase ruim que estamos atravessando juntos. tudo isso leva tempo. e tempo, em relação humana, não é fraqueza. é maturidade.

e teve outra coisa hoje que se encaixou nisso de um jeito quase incômodo de tão preciso.

eu fui ao centro espírita. a aula de hoje foi sobre a parábola dos talentos. e quem nunca ouviu, basicamente é uma história em que um senhor distribui valores pra três servos, cada um recebe uma quantidade diferente, e depois é chamado pra prestar contas do que fez com aquilo. dois multiplicaram. um enterrou no chão, com medo, e devolveu exatamente o que tinha recebido. e o senhor não ficou satisfeito com aquele último.

a leitura mais comum dessa parábola é sobre dom, talento, capacidade. o que você faz com o que você tem. mas eu acho que ela é mais ampla do que isso. eu acho que ela fala de tudo o que a gente recebe na vida. dom, sim, mas também relacionamento. também oportunidade de evolução. também as situações duras que aparecem, que doem, que parecem injustas, mas que carregam dentro delas alguma coisa que pode ser desenvolvida.

a briga com o john, sob essa ótica, é também um talento. soa estranho dizer assim, eu sei. mas é. é uma oportunidade que apareceu pra eu olhar pra alguma coisa em mim que eu talvez não estivesse olhando. é uma chance de evolução, embrulhada em uma dor pequena. e o que eu vou fazer com isso, depois que o puto baixar, é a pergunta que importa.

vou enterrar? vou esconder, ignorar, fingir que não aconteceu, voltar pro normal sem ter olhado de verdade pro que veio à tona?

ou vou multiplicar? vou usar isso pra entender melhor a relação, pra entender melhor a mim, pra crescer um pedaço, pra sair desse episódio com uma versão um pouquinho mais inteira do que entrou?

ainda não sei. e seria desonesto fingir que sei, escrevendo isso na noite do mesmo dia em que a briga aconteceu. mas eu acho que escrever sobre isso já é um começo. já é um sinal de que eu não estou interessado em enterrar. já é um movimento, ainda que pequeno, em direção a fazer alguma coisa com o que recebi hoje, mesmo que o que recebi tenha vindo embrulhado em mágoa.

a boia tá aqui. eu tô segurando ela. mas eu tô olhando pra terra firme.

e quando eu conseguir, vou nadar.


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