
véspera de pagamento. dia de planejamento, de organização, de espera. o tipo de dia que parece passar sem grandes acontecimentos, e que você só vai entender, no dia seguinte, que era um dia de antessala.
mas teve uma coisa nesse dia que eu reparei. e que me parece importante registrar, mesmo que pareça bobagem.
eu afundei a cara no trabalho.
não foi por urgência. tinha trabalho, sim, sempre tem. mas não era nada que justificasse o nível de imersão que eu escolhi. eu poderia ter feito uma fração do que fiz e terminado o dia bem mais cedo. poderia ter tido um almoço mais calmo, uma tarde menos cheia, um fim de tarde com tempo pra pensar. mas não foi isso que eu escolhi. eu escolhi me enterrar nas tarefas, uma atrás da outra, sem pausa real, sem deixar espaço pra nada que não fosse a próxima coisa a ser resolvida.
e quando eu parei, à noite, percebi por quê.
porque tinha alguma coisa, fora do trabalho, que eu não queria olhar.
isso me fez pensar em uma coisa que eu acho que ninguém fala com a sinceridade que merece. o trabalho, na vida adulta, virou um dos esconderijos mais socialmente aceitos que existem. talvez o mais aceito de todos. porque você pode estar em sofrimento, em conflito, em dúvida, em qualquer estado interno desagradável, e se você simplesmente disser que está ocupado, ninguém questiona. ninguém pergunta se está tudo bem. ninguém suspeita. estar trabalhando é um álibi quase perfeito. ele te isola, te ocupa, te dá uma sensação de produtividade que parece, do lado de fora, com saúde mental.
mas nem sempre é.
às vezes é o oposto. às vezes a gente trabalha demais justamente porque parar significa ter que olhar pra alguma coisa que está doendo. uma briga. uma decisão difícil. uma relação em tensão. uma fase em que algumas peças da vida estão balançando. e a cabeça, esperta como ela é, descobre que o trabalho oferece um abrigo perfeito. tem barulho. tem sequência. tem objetivo. tem aquela sensação reconfortante de estar avançando, mesmo que, no fundo, você esteja só se distraindo.
eu fui assim hoje. e acho que sou assim com mais frequência do que gostaria de admitir.
tem uma diferença enorme entre trabalhar porque você precisa, ou porque você gosta, ou porque o momento exige, e trabalhar pra fugir. as duas primeiras coisas constroem alguma coisa em você, mesmo quando cansam. a terceira só esconde. e ela é traiçoeira porque é difícil de identificar enquanto está acontecendo. de fora, parece a mesma coisa. um cara dedicado. um profissional que se entrega. alguém que prioriza as obrigações. mas, por dentro, é diferente. por dentro, tem uma fuga acontecendo, em câmera lenta.
e o problema da fuga, qualquer fuga, é que ela não resolve nada. ela adia. e o que você está adiando continua existindo, exatamente do tamanho que era, esperando você terminar de fingir que não está olhando. quando o expediente acaba, quando a planilha fecha, quando o último e-mail é respondido, lá está. paciente. inteiro. esperando.
eu acho que tem muita gente vivendo assim, e talvez nunca tenha parado pra pensar nisso. tem gente que constrói carreira inteira sob essa lógica. trabalha demais por anos, recebe elogios pela dedicação, conquista posição, ganha bem, vira referência. e em paralelo, vai deixando partes inteiras da vida pessoal balançando no vento, porque trabalho é mais fácil do que conversa difícil, mais simples do que terapia, mais palpável do que um conflito interno que não tem solução clara.
e quando essa pessoa, em algum momento, é forçada a parar, por uma doença, por uma demissão, por uma crise qualquer, ela descobre que o monte de coisa que estava guardando atrás do trabalho continua lá. cresceu até. porque quanto mais tempo você ignora, mais peso acumula.
eu não quero ser essa pessoa. eu reconheço que tenho tendência. e reconhecer já é alguma coisa, eu acho. é o primeiro passo pra começar a fazer diferente, mesmo que aos poucos.
mas eu também não quero me cobrar resolução imediata. hoje eu fugi pro trabalho. e tudo bem. eu identifiquei. eu nomeei. eu estou escrevendo sobre isso aqui, que já é um modo de não deixar passar batido. amanhã, ou depois, em algum momento, vou ter que olhar pro que eu estava evitando hoje. e vou olhar.
mas hoje não. hoje eu trabalhei. e amanhã, talvez, eu trabalhe de novo. mas pelo menos sabendo que estou fazendo isso. pelo menos com a consciência ligada, mesmo que a ação ainda não tenha mudado.
talvez seja isso que diferencia a fuga consciente da fuga automática. a fuga consciente sabe que é fuga. a automática acha que é virtude. e essa diferença, por menor que pareça, talvez seja a única coisa que separa quem em algum momento volta pra olhar do que estava evitando, de quem nunca volta.
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