
eu fui a um evento hoje. uma loja multimarcas de roupas, lançamento, gente conhecida, amigos íntimos do tipo que jantam com a gente toda semana. eu lancei até meu livro nesse mesmo lugar, pra você ter ideia da intimidade. é o que se chama de ambiente seguro, no sentido afetivo. é cheio de gente que eu conheço, que me conhece, que gosta de mim e de quem eu gosto.
e mesmo assim, eu queria ir embora.
estava cheio. uns oitenta por cento das pessoas eram conhecidas, mas isso, no fundo, não muda muita coisa quando o lugar está cheio demais. tudo era demais. a luz, o som, o número de cumprimentos, a velocidade dos assuntos começando e terminando sem pousar em lugar nenhum. minha mãe queria sair logo depois que eu cheguei, e claro, eu peguei aquela desculpa com as duas mãos, como quem segura uma corda jogada exatamente na hora certa.
e foi voltando pra casa que veio a pergunta.
eu fiquei pensando se tinha alguma idade em que a gente vai virando antissocial. se isso era uma coisa silenciosa que vai chegando, sem aviso, e em algum momento você se descobre cansado de coisas que antes te animavam. fiquei pensando se eu estava ficando assim. se tinha alguma coisa em mim que tinha mudado.
mas aí, olhando com mais cuidado, percebi que essa pergunta não fazia tanto sentido. porque se tem uma coisa que todo mundo da minha vida sempre falou sobre mim é exatamente isso. eu sempre fui antissocial. essa palavra esteve grudada em mim desde sempre. eu sou o que chega tarde, vai embora cedo, e quando vai embora, vai sem se despedir de muita gente, porque se despedir é negociar, e negociar é ouvir aquele “ah, mas tá cedo, fica mais um pouco”.
eu não sei se as pessoas têm noção do peso daquele “fica mais um pouco”. é uma frase pequena, gentil, vinda quase sempre com afeto. mas pra alguém que já estava no limite da própria energia, é mais um peso. é mais uma justificativa que você vai precisar inventar, mais um sorriso que você vai precisar oferecer, mais um pedaço de conversa que você vai precisar segurar até conseguir uma nova brecha pra dizer que precisa ir.
e a gente, no brasil especialmente, foi criado nessa cultura. a cultura do não-saia-ainda. do come-mais. do faltam-só-os-doces. do toma-um-cafezinho. é uma cultura linda, em muitos sentidos, é uma das coisas mais quentes do nosso jeito de ser. mas ela tem um custo invisível pra quem é como eu, pra quem se cansa em ambientes cheios, pra quem precisa de espaço pra recarregar e que tem dificuldade de recarregar perto de muita gente.
e foi nesse ponto que eu parei e me perguntei outra coisa. mais honesta. menos confortável.
será que talvez não tenha sido eu que mudei, mas talvez eu esteja, depois de muitos anos, parando de me cobrar pra ser o que eu nunca fui?
porque a verdade é que eu sempre fui assim. desde criança, provavelmente. e a vida inteira os outros foram me dizendo, de mil formas diferentes, que eu deveria ser de outro jeito. mais animado, mais participativo, mais social, mais. ficar mais. falar mais. abraçar mais. e eu fui, durante muito tempo, fazendo um esforço enorme pra dar conta dessa expectativa. fui ao teatro de fingir que estava tudo bem em ambientes que me sufocavam, e fingi por tanto tempo que em algum momento esqueci que era teatro. esqueci que eu estava me forçando.
e talvez agora, em algum ponto da vida adulta, eu esteja simplesmente parando de fingir.
isso pode parecer uma coisa pequena, mas eu acho que não é. eu acho que muita gente vive a vida inteira sem nunca passar por esse momento. continua se forçando, atendendo expectativa, indo nos eventos que esgotam, ficando até tarde porque não consegue sair, sorrindo em conversas que não tem o menor interesse em ter. e essa pessoa, com o tempo, vira uma versão cansada de si mesma. vira alguém que sente raiva sem entender por que. vira alguém que adoece no domingo à noite sem motivo aparente. vira alguém que precisa beber pra conseguir aproveitar uma festa que, no fundo, ela nunca quis ter ido.
e a alternativa pra isso não é virar uma pessoa fria, distante, que não se importa. a alternativa é parar de confundir convívio com presença. é entender que existe uma diferença enorme entre estar em meio a oitenta pessoas conhecidas e estar com quatro pessoas que você ama, em uma mesa, comendo, conversando, com tempo. são experiências completamente diferentes, e a primeira não é, em hipótese nenhuma, mais valiosa do que a segunda. tem gente que prefere a primeira, tudo bem. mas tem gente que prefere a segunda, e isso também tem que estar tudo bem.
eu sou da segunda.
sempre fui. e por décadas tentei me convencer do contrário. tentei aceitar convite, tentei ficar até tarde, tentei me sentir confortável em ambientes lotados, e me cobrei muito cada vez que não dava certo. me cobrei como se isso fosse uma falha de caráter. um defeito. uma coisa pra superar.
mas e se não for nada disso? e se for só temperamento mesmo? e se for só uma forma diferente, igualmente legítima, de existir?
eu acho que tem uma libertação enorme nesse reconhecimento, e que ela só chega depois de cansar muito. depois de muitas festas, muitos jantares longos, muitos eventos sociais em que você sentou na cadeira e contou as horas. essa exaustão acumulada, em algum momento, vira clareza. você para, olha pra dentro, e percebe que estava sofrendo desnecessariamente em nome de uma expectativa que nem era sua.
e a partir desse dia, alguma coisa muda. você ainda vai aos eventos, porque tem responsabilidades, porque tem afetos, porque tem ocasiões que importam. mas você vai com outra postura. vai sabendo do seu limite. vai com a permissão silenciosa de sair quando precisar sair. vai sem culpa por não ter ficado mais. vai entendendo, finalmente, que não tem ninguém te devendo nada, e que você também não está devendo nada a ninguém.
eu fui hoje. fiquei o tempo que dava. saí quando deu. e voltei pra casa com a minha mãe, em silêncio, com aquela paz específica de quem cumpriu uma obrigação social e agora pode finalmente respirar.
e talvez não seja uma idade que muda a gente. talvez seja só uma idade em que a gente, finalmente, deixa de pedir desculpa por ser como sempre foi.
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