dia 130/365.



dia das mães.

eu acordei e fui ver a minha mãe. moramos na mesma chácara, em casas separadas, então essa visita é mais simples do que parece: é atravessar um pedaço de jardim, é entrar em outra porta, é estar lá em alguns minutos. mas mesmo curto, mesmo simples, ela merecia o gesto de eu ir, de eu sentar, de eu dar bom dia, de eu lembrar que esse dia, antes de qualquer coisa, era dela.

fiquei um tempo. conversamos, dei carinho, comemoramos do nosso jeito, que é silencioso, sem grande produção, sem foto pra postar. e depois voltei pra minha casa, porque a família do john ia chegar pra passar o dia das mães aqui com a gente.

e foi aí que eu percebi uma coisa que eu acho que merece registro.

eu passei o dia entre duas mães.

a minha, lógico. mas também a do john, que veio com toda a família, que fez feijoada, que se sentou na minha sala, que riu com a gente o dia inteiro. e eu olhei pra ela, em algum momento da tarde, e me peguei pensando que aquele dia era dela também. e era. ela cuidou de alguém que eu amo. ela tem um papel grande na vida do meu marido, e por consequência, na minha. ela é mãe inclusive de mim, de um jeito diferente do que a minha mãe é, mas é. essas coisas são camadas, e eu acho que a vida adulta vai ensinando essas camadas com o tempo.

a gente é criado com uma noção muito específica do que é família. tem o seu sangue, tem a sua casa, tem o seu núcleo. e essa noção é importante, ela funciona, ela sustenta. mas em algum ponto da vida, se você tiver sorte, ela se expande. você começa a perceber que tem gente que entrou pela porta de outra forma e que ocupou um espaço grande dentro de você. gente que não é da sua família por sangue, mas que é, em todo o resto que importa. e essa gente vira família também.

a mãe do john é uma dessas pessoas pra mim. e o domingo de hoje foi tão dela quanto da minha mãe. e isso, em vez de dividir o dia, multiplicou ele.

a feijoada foi gigante. e eu comi, eu confesso aqui sem nenhum constrangimento, até passar mal. daquela maneira sem estratégia, em que você sabe que está exagerando e segue exagerando, porque a comida estava boa, porque a companhia estava boa, porque era domingo e era dia das mães e a desculpa estava posta na mesa junto com o resto. comi feliz e comi demais. as duas coisas convivendo em harmonia, como deveria ser.

depois ficamos todos na sala. lareira acesa, filme passando, e em algum momento uma animação que tinha acabado de ser lançada apareceu na tela, e a gente entrou nela. todo mundo. adulto, criança, ninguém escapou. e teve aquele tipo de risada que só rola em ambiente assim, quando todo mundo está relaxado, com a barriga cheia, com calor do fogo da lareira, com a sensação de que aquela tarde inteira pode passar e ninguém precisa fazer nada além de estar ali.

e eu fiquei pensando, nesse intervalo, que essa é a parte que ninguém conta sobre os dias importantes da vida.

a gente cresce achando que data comemorativa pede gesto grande. presente caro, almoço em restaurante chique, reserva feita com semanas de antecedência, foto bonita pra colocar no instagram com legenda emocionada. e em algumas famílias é assim mesmo, e tudo bem. mas existe outra forma. uma forma que, eu acho, dura mais. que se acumula no corpo da gente como memória afetiva real.

é essa. é a feijoada feita por uma das mães. é o filme assistido juntos. é a animação infantil que a gente viu rindo. é a lareira acesa numa noite que não pedia lareira, mas a gente acendeu porque dava vontade. é estar todos ali, na mesma sala, em silêncio confortável às vezes, em risada alta em outras, sem precisar produzir nada, sem precisar performar afeto.

a verdade é que o dia das mães mais bonito do mundo é aquele em que você consegue, em algum momento, esquecer que é dia das mães. esquecer no sentido bom. no sentido de não estar o tempo todo fazendo um teatro pra honrar a data. estar ali, simplesmente. fazendo coisas comuns com pessoas que importam. e isso, no fim, é a única coisa que essas datas estavam tentando dizer, desde sempre. estar junto.

eu tive uma dor de cabeça forte mais tarde, dessas que me obrigaram a ir pra cama. e olha que ironia, dormir no meio do dia das mães. mas até isso, eu acho, foi uma forma de cuidado. o corpo pedindo o que precisava, e eu, finalmente, aprendendo a escutar. dormi um pouco, me recompus, e depois desci pra fazer o jantar pra minha mãe. como sempre faço. como já virou rotina silenciosa entre a gente, esse meu jantar de domingo na casa dela. mas dessa vez com um toque especial, porque hoje, afinal, era um dia diferente. um dia em que esse gesto antigo ganhou um peso novo.

cozinhar pra ela hoje não foi exceção. foi continuação. e talvez seja isso que torne tão bonito. porque a única forma de um dia das mães significar alguma coisa de verdade é se os outros trezentos e sessenta e quatro dias também tiverem significado. não dá pra construir afeto em um único domingo do ano. dá pra coroar com um almoço bonito o que já vinha sendo construído. e o que coroou hoje, no jantar simples que eu fiz pra ela na cozinha dela, foi uma rotina inteira de cuidado, repetida por meses, sem alarde, sem foto, sem combinação.

quando eu olho pra esse dia inteiro, eu vejo uma riqueza que não cabe em foto. duas mães presentes. uma família multiplicada em vez de dividida. uma feijoada gigante. uma animação infantil que arrancou risada de gente grande. uma lareira em maio. uma cama acolhendo um corpo cansado. um jantar feito de novo, como sempre, mas com um toque que só hoje pedia.

e talvez o dia das mães seja exatamente isso. um lembrete silencioso de que tem gente cuidando da gente, de mais de um jeito, vindo de mais de uma direção, há mais tempo do que a gente costuma reconhecer.

e que cabe a gente, pelo menos uma vez por ano, parar e olhar pra elas. todas elas. com o olhar de amor e carinho que esse momento merece. porque nós viemos delas e nada poderia ser um presente maior do que isso. feliz dia das mães.


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