dia 131/365.



o frio chegou.

e eu vou explicar uma coisa esquisita antes de qualquer coisa. ontem, na teoria, estava mais frio. tinha número menor no termômetro, vento, tudo. mas eu, hoje, passei muito mais frio do que ontem. me explica como? não me explica, porque não tem explicação. é uma dessas coisas que o corpo decide e a gente segue.

acordar foi sofrido.  e eu preciso ser sincero aqui, porque seria contraproducente dizer que normalmente eu acordo bem. eu sou a pessoa mais dramática do planeta de manhã. eu sou o tipo que solta um “deus me leve, por favor” sem nenhum constrangimento, com a cabeça ainda enfiada no travesseiro, antes mesmo de abrir o olho. as pessoas em volta de mim sabem que existe uma regra não escrita nessa casa: nas três primeiras horas depois que eu acordo, ninguém fala comigo. ninguém me pergunta nada. ninguém me oferece nada. ninguém me cumprimenta de forma muito entusiasmada. eu não consigo nem sorrir direito antes do meio-dia, ponto. é uma limitação física, quase. minha musculatura facial só desenvolve a capacidade de sorrir depois do almoço.

então imagina, com esse estado natural meu, acordar com cinco graus do lado de fora. foi uma combinação cruel. foi tipo o universo somar todos os meus pontos fracos numa única manhã. drama matinal mais frio extremo mais segunda-feira. se existisse um manual da pior forma de começar uma semana, esses três itens estariam no índice, juntos, na mesma página.

e o pior, o pior de tudo, é que o dia não melhorou. o dia foi piorando. tinha uns dez graus de manhã. à noite estava com oito. ou seja, em vez de esquentar, esfriou mais. e eu olhei pro termômetro nessa hora com uma sensação que misturava revolta, descrença e uma vontade leve de mudar de país.

o frio é o meu inimigo natural.

eu sei que tem gente que adora. tem gente que solta uma frase como “ah, eu prefiro frio porque dá pra se agasalhar, calor não tem o que fazer”. e eu olho pra essa pessoa com a mesma cara que eu olharia pra alguém me dizendo que prefere comer pedra. cada um sabe o seu gosto, eu suponho. mas eu não entendo. eu nunca vou entender. eu sou o cara que passa frio o dia inteiro, com meia, com casaco, com chá fervendo na mão, e ainda assim com pé gelado. meu pé é uma região climática à parte do resto do corpo. ele tem temperatura própria, e essa temperatura é polar, independente da estação.

e ainda por cima, foi numa segunda-feira.

porque segunda-feira já é difícil por si só, mas segunda-feira com dez graus é praticamente um insulto pessoal. é o universo te puxando pela coberta e dizendo: amigo, a vida adulta te aguarda, e ela está congelando.

agora, tem uma coisa que eu quero dizer aqui, porque ela me incomoda há um tempo e hoje subiu mais um pouco com o frio.

todo ano nessa época rola um discurso, principalmente nas redes, que basicamente é o seguinte. você reclama do frio? aí aparece alguém pra te lembrar que tem gente passando frio na rua. você reclama do calor? aparece alguém pra te lembrar que tem gente sem ventilador, sem ar, sem nada. você reclama de uma dor de cabeça? alguém te lembra que tem gente com doença grave. e assim vai.

e olha, eu entendo a intenção. de verdade. tem gente bem intencionada nesses comentários. mas a lógica está furada.

reconhecer privilégio não anula sensação. eu posso ter um teto, várias cobertas, casa quente, e ainda assim sentir frio. as duas coisas convivem dentro de mim sem se anular. eu sei que sou privilegiado. eu reconheço. eu, inclusive, faço a minha parte. eu doo cobertores, eu me envolvo em coisas, eu não estou aqui virando as costas pra realidade do outro. mas isso não me impede de sentir o que eu estou sentindo. nem deveria impedir ninguém de sentir o que sente.

essa coisa de “tem gente em pior situação” é uma das frases mais traiçoeiras que existem. ela parece empática, parece social, parece consciente. mas no fundo ela é uma forma muito eficiente de calar todo mundo. porque sempre vai ter alguém em pior situação. sempre. é uma régua sem fim. e se a gente for usar essa lógica, ninguém pode reclamar de nada, em lugar nenhum, em momento nenhum. e isso só faz com que as pessoas guardem o que sentem, fingindo que está tudo bem, até o dia em que não dá mais.

eu sigo doando cobertor. e seguindo reclamando do frio. essas duas coisas não se cancelam. elas andam juntas, na minha vida, e em qualquer vida adulta que seja minimamente honesta.

aliás, eu acho que é justamente quem reconhece o próprio incômodo que entende melhor o incômodo dos outros. quem nunca passou frio dentro de casa não imagina o frio de fora. quem passou, mesmo que de forma diminuída, consegue dimensionar com mais clareza. a empatia, no fundo, nasce do reconhecimento da própria fragilidade, não da negação dela.

então não, eu não vou parar de reclamar. eu vou reclamar do frio hoje, vou reclamar amanhã, vou reclamar todo ano nessa época em que ele aparece. e vou continuar ajudando quem precisa, dentro do que está ao meu alcance. uma coisa não substitui a outra. nem deveria.

e tem outra observação, mais boba, que eu queria deixar registrada hoje.

o frio expõe o ser humano de um jeito que poucas coisas expõem.

a gente passa o ano inteiro construindo uma versão de si mesmo. trabalha em ser produtivo, em ter postura, em parecer organizado, em projetar uma imagem mais ou menos coerente pro mundo. e aí chega um dia de cinco graus e essa imagem inteira desmorona. todo mundo vira uma versão mais peluda, mais lenta, mais embolada, mais ridícula de si próprio. ninguém escapa. nem o engravatado, nem a executiva, nem o atleta. todo mundo vira gente embaixo de várias camadas, andando com aquele passo encolhido, com o nariz vermelho, com cara de quem só quer voltar pra cama.

tem uma democracia no frio que é quase bonita, se você parar pra pensar. ele iguala. ele nivela. ele não respeita posição social, conta bancária, prestígio. ele simplesmente chega e cobra a sua humanidade comum. e a gente, em todos os bilhões, responde da mesma forma. tremendo.

eu vou dormir hoje com mais coberta do que necessário, com meia, e provavelmente com o pé ainda gelado, porque o meu pé é assim, ele não negocia. e amanhã, quando o despertador tocar, vou fazer de novo o cálculo emocional de quanto eu quero sair da cama. e provavelmente o cálculo vai dar negativo. e mesmo assim eu vou sair.

porque a vida adulta exige. e o frio, infelizmente, faz parte dela.

mas reclamar dele, isso eu vou continuar fazendo.

reclamando bonito, com humor, sem ofender ninguém, mas reclamando. porque eu sou humano. e humanos sentem frio. e humanos reclamam. é assim que a gente foi feito.

e quem disser o contrário, provavelmente está mentindo.

ou mora no nordeste.


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