
hoje eu fiz duas coisas que não parecem ter relação nenhuma uma com a outra. tive consulta com a minha psiquiatra, online, no horário de sempre. e depois cortei o cabelo.
mas eu fui pensando, ao longo do dia, no quanto essas duas coisas falam, no fundo, da mesma coisa.
cuidado.
uma cuida do que ninguém vê. a outra cuida do que todo mundo vê. e as duas, eu acho, são igualmente importantes, mesmo que a sociedade insista, há décadas, em valorizar uma e relativizar a outra.
eu vou ao psiquiatra há muitos anos. muitos mesmo. comecei muito cedo, na adolescência, e essa rotina nunca mais se desfez. tem momentos em que ela fica mais espaçada, tem momentos em que ela aperta. esse ano, especificamente, foi um dos que apertaram. ainda estou no processo de adaptação de medicação, ainda estou ajustando dose, observando efeitos, mapeando como o corpo responde. é trabalho. é um trabalho constante. silencioso, mas constante.
e tem uma coisa que eu acho que vale dizer aqui, sem nenhuma pretensão de virar bandeira ou de soar didático demais. tratar saúde mental, em qualquer nível, é um ato de coragem que muita gente ainda subestima. porque exige reconhecer alguma coisa que dói, exige procurar ajuda, exige aceitar que sozinho você não dá conta de tudo. e mais ainda, exige paciência. porque diferente de uma dor de garganta, em que você toma o remédio certo e em três dias resolveu, saúde mental é um caminho longo. tem ajuste, tem retorno, tem recomeço. tem dias em que parece que está tudo bem encaminhado, e tem dias em que você precisa voltar pra fase anterior, sem drama, porque é assim que funciona.
eu, particularmente, fico um pouco impaciente com discursos que tratam saúde mental de forma simplista. coisa do tipo “é só pensar positivo”, ou “é só fazer exercício”, ou “é só ter fé”. todas essas coisas ajudam, todas elas têm seu lugar. mas reduzir a complexidade do cérebro humano a uma única solução é, no mínimo, ingenuidade. tem uma química acontecendo ali dentro, que escapa do nosso controle, e que às vezes pede ajuste com remédio mesmo. e ponto. não tem fraqueza nisso. não tem falta de fé nisso. tem só biologia, e biologia exige tratamento como qualquer outra parte do corpo exigiria.
mas eu também acredito que tratamento não é só remédio. é só uma das pernas. a outra perna é a conversa. é o trabalho semanal, ou mensal, com alguém que te conhece, que te acompanha, que te ouve com profissionalismo e com humanidade. é a química e a palavra trabalhando juntas. uma sustentando a outra. e quando essas duas pernas andam no mesmo ritmo, a pessoa caminha. devagar, às vezes, mas caminha.
a consulta foi boa hoje. dessas que saem com a sensação de que algumas coisas ficaram mais nítidas. nem sempre é assim, claro. tem consulta que parece não levar a lugar nenhum, e tudo bem. faz parte do processo. mas hoje teve aquele tipo de clareza que vem aos poucos, em sessões diferentes, e que de repente se cristaliza em alguma percepção. e isso, sozinho, já valeria o dia.
mas o dia continuou.
e quando você sai de uma consulta dessas, tem uma energia diferente. é como se você tivesse tirado uma camada de poeira de dentro. e foi com essa energia que eu fui cortar o cabelo.
agora, vamos falar disso, porque eu acho que merece. cortar o cabelo é uma das coisas mais subestimadas do mundo em termos de impacto emocional. parece pequeno, parece superficial, parece coisa banal. mas qualquer pessoa que já saiu de um cabeleireiro depois de um corte bom sabe do que eu estou falando. você se olha no espelho e parece outra pessoa. não fisicamente, embora também. mas internamente. é como se uma pequena reinicialização tivesse acontecido. como se uma fase tivesse sido cortada junto com as pontas.
e eu acho que isso fala muito sobre como o externo e o interno são mais ligados do que a gente quer admitir. tem uma corrente forte, especialmente em ambientes mais espiritualizados, em que se prega que o externo não importa. que beleza é superficial, que vaidade é defeito, que se cuidar é coisa de quem não tem profundidade. eu discordo completamente. acho que isso é uma forma de pensar antiga, simplificadora, que não dá conta do ser humano inteiro.
cuidar do externo é também uma forma de cuidar do interno. quando você se vê melhor no espelho, alguma coisa por dentro responde. e não é só vaidade. é autoestima. é respeito por si mesmo. é mandar uma mensagem silenciosa pro próprio cérebro de que você merece tempo, atenção, dedicação. um corte de cabelo é isso. uma manicure é isso. uma roupa que cai bem é isso. são pequenas declarações de amor próprio que a gente faz no dia a dia, e que somam, e que sustentam.
e ao mesmo tempo, é verdade o contrário. cuidar só do externo, sem cuidar do interno, é construir uma casa bonita em cima de uma fundação rachada. cedo ou tarde, vai aparecer. tem muita gente vivendo assim. impecável por fora, em frangalhos por dentro. e essa equação não se sustenta a longo prazo. ela exige tanto controle, tanta encenação, tanta energia, que acaba consumindo a pessoa por dentro.
o ideal, eu acho, é fazer os dois. devagar, sem pressa, sem cobrança excessiva. cuidar do que aparece e do que não aparece. ir no cabeleireiro e ir no psiquiatra. usar uma roupa que te faça sentir bem e fazer uma conversa difícil sobre você mesmo. amar a si mesmo nos dois extremos. nem só por fora, nem só por dentro. inteiro.
hoje eu fiz isso, mesmo sem planejar. acordei com cinco graus, com toda a aquela sequência de coisas chatas que eu já contei. mas atravessei o dia fazendo, de propósito ou não, dois gestos pequenos de cuidado. um de dentro, um de fora. e fui dormir mais leve por causa deles. cada um a sua maneira.
e eu queria deixar isso registrado aqui, mesmo que pareça pouco, porque eu acho que é o tipo de coisa que precisa ser dita mais vezes. especialmente pra quem está lendo e está em algum nível de aperto interno. se cuidar não é luxo. se cuidar não é vaidade. se cuidar não é ego. se cuidar é, em muitas situações, a coisa mais importante que você pode fazer pra atravessar a fase que está atravessando.
vá no psiquiatra. corte o cabelo. faça os dois, se conseguir. faça pelo menos um, se for o que dá. mas faça alguma coisa. porque ninguém vai vir te lembrar do quanto você merece esse cuidado. essa parte cabe a você. e essa parte, eu acho, é uma das coisas mais bonitas que a vida adulta tem a ensinar.
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