
eu preciso falar de uma coisa séria.
mais séria do que parece, na verdade. é uma daquelas discussões que sobrevivem gerações inteiras no brasil, que dividem família, que separam casais em jantares de domingo, que geram trocas de mensagem no grupo da família com uma intensidade desproporcional. e essa discussão é a seguinte.
sopa é janta?
eu defendo, com toda a convicção que um homem adulto pode ter sobre uma questão dessa relevância, que não. sopa não é janta. sopa é sopa. é uma categoria à parte, com função própria, com lugar próprio na hierarquia das refeições. e tentar promovê-la a janta é, no mínimo, uma confusão classificatória.
e eu tenho minha razão. eu cresci em uma cultura italiana, com aquelas sopas tradicionais de caldo, geralmente com uma massa pequena, ou uns legumes, ou um arroz solto ali dentro. é uma comida linda, eu adoro, eu peço repetição. mas se você me disser que aquilo ali sozinho é o jantar, eu vou rir na sua cara. com muito carinho, mas vou rir. porque pra aquilo virar janta na minha vida, precisa vir acompanhado de pelo menos seis pães. e não estou exagerando. eu como sopa com pão como quem come molho com massa. um não existe sem o outro. e o pão tem que ser de verdade, pão francês de padaria, daqueles que crocam quando você morde e que ficam molinhos quando você molha no caldo. essa, sim, é a equação da janta. sopa, sozinha, não fecha conta.
e tudo bem se você discorda. eu sei que tem gente que defende sopa como janta com a mesma intensidade que eu defendo o contrário. é um país livre, supostamente. cada um come o que quer. mas eu reservo o direito de não concordar.
agora, eu preciso fazer uma confissão pra ser justo.
ultimamente eu tenho visto umas sopas no instagram que mudaram completamente a minha perspectiva. e olha, eu fiquei aterrorizado. porque essas sopas modernas, essas tais de sopas que estão virando moda, são outra coisa. não é sopa, gente. é uma refeição completa disfarçada de sopa. tem feijão, tem carne, tem milho, tem legume, tem bacon, tem queijo, tem batata, tem mandioca, tem inhame, tem couve, tem creme de leite, tem em alguns casos macarrão. e tudo isso, junto, na mesma panela.
isso não é sopa. isso é um pf dentro da panela.
e quando eu uso a sigla pf, eu sei exatamente o que estou dizendo. estou falando do prato feito clássico brasileiro, aquele que tem arroz, feijão, carne, salada, batata frita, ovo, farofa, tudo no mesmo prato, em quantidade desumana. as pessoas que defendem essa nova geração de sopa estão, na verdade, comendo o pf de toda a vida, só que líquido. e estão tentando me convencer de que é sopa. de que é leve. de que é “comidinha de noite”. eu vi receita semana passada que levava quatro tipos de carne. quatro. eu nem como quatro tipos de carne num churrasco, imagina numa “sopa”.
então eu admito. talvez o problema seja semântico. talvez essas pessoas que defendem sopa como janta não estejam falando da mesma sopa que eu. elas estão comendo uma refeição completa, em formato líquido, e chamando de sopa por convenção. e nesse caso, ok, é janta sim. é janta do tipo “vou explodir depois de comer isso”, mas é janta. concedo.
mas se a gente for falar de sopa de verdade, daquela que cabe numa tigela, com colher pequena, com vapor subindo, com aquela leveza típica de italiana sentada à mesa em uma noite fria, não. essa não é janta. essa é entrada. ou é cura de gripe. ou é refeição de quem está convalescendo. mas janta, no sentido pleno do termo, não.
eu fico pensando o quanto essas discussões dizem sobre a gente. porque elas parecem bobagem, parecem coisa pequena, mas elas se sustentam por décadas, atravessam família inteira, marcam posição. todo brasileiro tem uma opinião formada sobre. todo brasileiro consegue, em uma conversa de dois minutos, te dizer com convicção de qual lado está. e essas opiniões raramente mudam. tem gente que vai morrer achando que sopa é janta. tem gente que vai morrer achando que não. e ninguém vai convencer ninguém.
isso é, no fundo, sobre afeto. sobre identidade. sobre o jeito como cada um foi criado em volta de uma mesa. quem foi criado comendo sopa como refeição completa vai defender com unhas e dentes esse formato, porque junto com aquela sopa vinha a avó, vinha o pai chegando do trabalho, vinha o cheiro de uma cozinha específica que não existe mais. e quem foi criado de outra forma, como eu, defende outro modelo, pelo mesmo motivo. a gente não está defendendo a sopa. a gente está defendendo a infância. e isso é intocável.
e talvez essa seja a beleza dessas discussões raiz brasileiras. elas parecem bobagem, mas são, na verdade, conversas sobre memória afetiva disfarçadas de gastronomia. e por isso elas não se resolvem nunca. porque não tem como resolver. cada um carrega a sua mesa dentro de si, e essa mesa vai continuar valendo mais do que qualquer argumento lógico.
eu, hoje, jantei minha versão de janta. com pão. com sopa, sim, porque era um dia frio, e sopa em dia frio é uma das maravilhas da humanidade. mas com pão. seis pães, se você quer saber. e fui feliz.
cada um na sua. e se a sua sopa tem quatro tipos de carne, eu respeito. mas chama de pf líquido, por favor. fica mais honesto.
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