dia 134/365.



eu trabalhei até mais tarde na fábrica hoje. e o engraçado é que as coisas, estranhamente, têm começado a dar certo. depois de meses de aperto, de cálculo apertado, de manobra de última hora, agora alguma coisa parece estar afrouxando. e isso é estranho, num primeiro momento. a gente fica esperando o próximo problema chegar, porque o corpo se acostumou. mas hoje, mais um dia de fluência, e eu tô levando isso como sinal. as coisas se ajustam.

a dor de cabeça voltou de noite, e eu vou ser sincero, ela tem essa mania de aparecer sempre nos dias em que alguma coisa importante está chegando. é quase uma agenda paralela do corpo. ele sabe antes de mim quando uma coisa pesa. e ela voltou hoje porque amanhã eu faço aniversário.

quarenta anos.

e disso eu falo amanhã, porque amanhã é o dia certo de falar sobre isso, com o peso do número já instalado, com a sensação real de estar dentro dele. hoje ainda é véspera. e a véspera, no meu caso, sempre carregou algo diferente do dia em si. porque o problema com aniversário, pra mim, nunca foi exatamente fazer aniversário. foi outra coisa.

foi a comemoração.

e isso vai parecer estranho pra muita gente, eu sei. tem gente que adora aniversário. tem gente que conta os dias, que planeja, que faz lista de convidados, que escolhe tema, que se diverte com o ritual inteiro. e tudo bem, eu não tô aqui questionando ninguém. mas eu nunca fui assim. eu não me lembro de uma única vez na minha vida em que eu tenha acordado no meu aniversário animado pra comemorar. nem uma vez. e isso, em algum momento, eu precisei aceitar que era só como eu funciono.

eu tive uma festa de aniversário grande quando fiz dezoito. era pra ser uma celebração, no sentido pleno. e foi uma noite que ficou marcada, mas não da forma que devia ter ficado. não vou entrar no detalhe do que aconteceu, porque isso é coisa minha, e essa parte específica não muda o ponto. mas o que importa é o seguinte: aquela noite criou em mim uma associação. e essa associação ficou. festa de aniversário virou, na minha cabeça, sinônimo de coisa que pode dar errado. de momento em que você se expõe, em que centraliza a atenção, e em que algo pode escapar do seu controle e estragar tudo. esse tipo de marca não vai embora porque você quer. ela fica.

e a partir daquele ano, eu, sem perceber, comecei a evitar. todo aniversário, durante muitos anos seguidos, eu fui dando um jeito de não comemorar. de não fazer festa. de não chamar gente. de passar o dia o mais discretamente possível, como se ele não existisse, ou como se fosse um dia qualquer no calendário, sem importância especial. teve uma vez, em algum momento, em que cedi e fiz alguma coisa. mas usei meu ex como uma espécie de centro paralelo, pra desviar a atenção, pra eu não ser o foco. e mesmo assim foi exaustivo. e eu falei pra mim mesmo, depois daquele dia, que não ia repetir. e cumpri por muito tempo.

eu sei que isso pode parecer um problema. pode parecer trauma não resolvido. pode parecer fobia social, ou outra coisa qualquer. mas eu acho que é mais simples do que isso. é só que algumas pessoas não gostam de ser foco. e a sociedade, especialmente a brasileira, tem dificuldade de aceitar isso. porque aniversário aqui é quase uma obrigação afetiva. se você não comemora, alguém vai te perguntar por quê. se você não convida ninguém, alguém vai se ofender. se você passa o dia em silêncio, alguém vai achar que você está deprimido, ou bravo, ou ingrato pela vida que tem.

e a verdade é que não é nada disso. é só preferência. é só temperamento. é só uma pessoa que prefere o dia comum à versão produzida dele.

eu tô fazendo 40 amanhã, e ainda assim, a festa só vem em julho. faz tempo que isso está combinado, faz tempo que isso foi pensado. tem motivo, tem propósito, e disso eu posso falar quando chegar a hora. mas amanhã, no dia exato, vai ser uma sexta-feira como qualquer outra. com o jantar de sempre na casa da minha mãe. uns amigos próximos que já vinham mesmo, independente da data, porque sexta na casa dela é praticamente um ritual antigo, dos tempos em que meu pai ainda estava aqui e a casa cheia era a regra. dele restou esse jantar. e essa, pra mim, vai ser a única forma de marcar o dia. simples. discreta. do jeito que combina comigo.

e olha, eu reconheço uma coisa engraçada nisso. tem gente que vai me chamar de chato, de antissocial, de cara que não sabe aproveitar. e eu não vou nem discordar muito. talvez eu seja um pouco essas coisas. mas eu também acho que existe uma forma muito mais bonita de aproveitar a vida do que produzir grandes celebrações. e essa forma, pra mim, sempre foi a do cotidiano bem vivido. a da mesa cheia em uma sexta-feira sem motivo especial. a da risada que aparece em uma terça-feira aleatória. a da conversa boa que rola quando você nem tinha planejado conversar. a vida acontece nesses lugares, muito mais do que nas grandes datas.

aniversário, pra mim, sempre foi um dia desproporcional. um dia em que se exige demais. em que todo mundo quer estar perto, te ligar, te mandar mensagem, te abraçar mais forte. e eu, sinceramente, sempre me senti um pouco esmagado por essa intensidade concentrada. é muita atenção, em um único dia, em alguém que prefere a atenção diluída, espalhada, sem alarde.

eu vou atravessar amanhã. eu sei como fazer isso. eu já atravessei trinta e nove vezes antes. cada uma do meu jeito. cada uma com suas particularidades. e dessa vez vou contar com a vantagem de já ter combinado, comigo mesmo e com quem importa, que a comemoração de verdade vem depois. em julho. com mais espaço pra respirar. com mais sentido pra estar.

por enquanto, é só véspera. véspera de um número que pesa. véspera de uma data que sempre foi complicada pra mim. e mesmo assim, dessa vez, com uma calma diferente. porque eu não estou fugindo. eu não estou evitando. estou só escolhendo o meu ritmo. e essa, em algum nível, talvez seja a primeira diferença real em décadas. a primeira vez que o aniversário não é uma fuga. é só uma sexta-feira com gente que eu amo.


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