
quarenta.
eu escrevo esse número e fico um tempinho olhando pra ele na tela, como se ele fosse uma palavra em outro idioma que eu precisasse traduzir. quarenta. quarenta anos. é uma marca. não tem como fingir que não é. a cabeça humana adora número redondo, e quarenta tem uma redondeza especial, daquelas que fazem a gente parar e olhar pra trás, mesmo quando a gente jura que não vai olhar.
eu acordei hoje sem nada de espetacular acontecendo. dor de cabeça ainda rondando, como tinha rondado na véspera, mas no geral foi um dia comum. trabalho. fábrica. coisas pra resolver. e aí, em vários momentos do dia, mensagens. ligações. áudios. todo mundo lembrando, todo mundo querendo bem. e eu, do meu jeito, respondendo, agradecendo, sem grande comoção, mas com aquela sensação meio estranha de quem está sendo lembrado de algo importante e ao mesmo tempo precisando seguir o dia normal.
porque quarenta é estranho. é diferente de trinta. trinta ainda tem aquela cara de juventude esticada, daquela fase em que você ainda pode dizer que está começando alguma coisa. quarenta já não. quarenta é a entrada oficial em uma faixa em que você não está mais começando nada. você está, em algum nível, no meio. e o meio é um lugar interessante. ele te obriga a olhar pros dois lados. pra trás, pra ver quem você foi. pra frente, pra perceber o quanto ainda existe pela frente, mas também o quanto já não dá pra desperdiçar.
eu fiquei pensando, ao longo do dia, em quem eu era aos vinte. aos vinte e cinco. aos trinta. e o que eu vi não foi uma linha do tempo bonita, daquelas que cabe em legenda de instagram com “olha como eu cresci”. o que eu vi foi um cemitério inteiro de versões minhas que ficaram pelo caminho. cada uma com seus medos, seus sonhos, suas convicções absurdas, suas certezas que depois caíram por terra. tem uma versão minha lá nos vinte que achava que aos trinta eu já teria a vida resolvida. quase fofo, olhando agora. tem uma versão minha aos trinta que achava que tinha entendido o jogo. essa eu rio mais ainda. todas essas versões precisaram morrer pra que essa atual, a de hoje, pudesse existir.
e talvez essa seja uma das coisas mais difíceis que ninguém te conta sobre envelhecer. ninguém te conta que cada década pede um pedaço de você. que cada nova fase exige uma morte simbólica de quem você foi na anterior. e que algumas dessas mortes doem mais do que outras. tem versões da gente que a gente solta com alívio, daquelas em que olhar pra trás é quase um susto, do tipo “como é que eu acreditava naquilo?”. e tem outras versões que a gente segura com força, porque elas eram boas, porque elas eram leves, porque elas eram livres de jeitos que a gente hoje não consegue mais ser. essas custam mais. essas a gente solta chorando.
e aí tem este ano. esse maldito ano. esse ano que eu não escolhi, mas que veio com tudo, sem pedir licença.
esse ano em que a zara foi embora. esse ano em que perdi uma amiga querida que descobriu uma doença em um mês e foi embora um pouco depois. esse ano em que a fábrica tremeu, a saúde mental cobrou de novo, a saúde física mandou sinais que eu não pude mais ignorar. esse ano que veio em camadas sucessivas de luto, de desafio, de cansaço acumulado. e que veio também carregando, ainda fresco, o luto do ano anterior, o do meu pai, que não dá pra fingir que cicatrizou em doze meses. esse ano que, em qualquer outra fase da minha vida, teria me derrubado de um jeito que talvez eu não conseguisse mais levantar.
e ainda assim, eu estou aqui. fazendo 40. inteiro. cansado, sim. machucado, sim. com cicatrizes novas que não tinha em janeiro, sim. mas inteiro. respirando. escrevendo. atravessando.
e talvez seja isso o que esse aniversário está me dando. essa percepção. essa silenciosa constatação de que eu sou mais resistente do que eu achava. que cada uma daquelas versões anteriores minhas, que morreram pelo caminho, deixaram alguma coisa de força em mim. não sei como, não sei explicar direito. mas é como se cada despedida, cada perda, cada luto, tivesse vindo carregando junto um pedacinho de blindagem pra próxima vez. e quando a próxima vez chega, eu descubro que estou um pouco mais preparado do que eu mesmo imaginava.
mas eu não quero romantizar isso. seria mentira. eu não estou aqui dizendo que esse ano foi um aprendizado bonito, ou que eu sou grato pelos meus traumas, ou qualquer dessas frases de coach que me dão urticária. eu preferiria, com toda sinceridade, que esse ano não tivesse acontecido como aconteceu. eu preferiria estar fazendo 40 com meu pai vivo e com a zara dormindo no meu pé. eu pagaria caro pra ter essa versão. mas a vida não negocia. ela te dá o que dá. e o que ela me deu nesse ano foi tudo isso. cabe a mim, agora, decidir o que fazer com isso.
e o que eu decidi, sem grande estardalhaço, foi seguir.
fazer 40 com a clareza estranha de quem foi obrigado a entender a vida no curso intensivo do luto. perder gente que você ama te ensina coisas que livro nenhum ensina. te tira certezas falsas. te entrega uma forma de olhar pro tempo que é diferente da que se tinha antes. e isso, no fundo, é o que muda quando a gente faz quarenta. não é o número em si. é o tanto que se viveu até chegar lá.
e tem uma outra coisa que eu queria deixar registrada hoje, mesmo correndo o risco de soar estranho.
eu acho que aos quarenta a gente finalmente para de fingir.
para de fingir que está tudo bem quando não está. para de fingir que precisa caber em expectativas que nem são suas. para de fingir que tem tempo infinito pra adiar as coisas que importam. tem uma honestidade nova que chega com essa idade, e que eu sinto chegando em mim, em pequenas doses, ao longo dos últimos meses. é uma honestidade que pesa, no começo, porque ela te força a olhar pra coisas que você passou décadas tentando não olhar. mas depois ela alivia. porque viver de máscara é cansativo. viver da própria voz é bem mais leve, mesmo quando a voz não é a mais agradável de se ouvir.
eu vou jantar hoje na casa da minha mãe. com poucos amigos, do jeito que eu prefiro. sem ninguém cantando parabéns na minha cara. sem velinha sendo apagada com toda atenção em mim. só uma sexta-feira na casa de sempre, com a comida de sempre, com o cuidado de sempre. e isso, pra quem me conhece, é exatamente a melhor forma de marcar esse dia.
a comemoração de verdade vem depois. em julho. tem motivo, tem propósito, tem gente envolvida. e disso eu falo quando chegar a hora.
mas hoje, no dia em si, no dia em que esse número de quarenta finalmente bateu na minha porta, o que sobrou foi uma sensação meio quieta de gratidão. não a gratidão performática que aparece em postagens de aniversário, com lista de coisas pelas quais a pessoa é grata e foto sorrindo. mas outra. uma gratidão silenciosa, quase envergonhada, de quem atravessou um ano absolutamente brutal e está, contra todas as estatísticas internas, ainda aqui. fazendo aniversário. recebendo mensagem. comendo um jantar simples com gente que ama.
é pouco, em termos de fotografia. é muito, em termos de vida.
quarenta. eu cheguei. e o quanto isso significa, só vai ficando mais claro com o passar das horas.
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