dia 136/365.



eu fui o tio da festa hoje. ou, mais especificamente, o tio que ficou indo e vindo de um lado pro outro porque o meu sobrinho, que também é meu afilhado, resolveu dar uma festa aqui na chácara, na casa da minha mãe. previsão inicial de sessenta adolescentes. veio um pouco menos, uns trinta e cinco, mas mesmo assim foi mais do que suficiente pra observação que eu queria registrar hoje.

a festa, por sinal, foi o puro suco do caos. divertida, claro, mas só porque não era minha responsabilidade. os pais dele estavam aqui, alguns amigos da família também, e eu fiquei na função confortável de observar sem precisar resolver nada. e dessa posição privilegiada, eu reparei em uma coisa que não consigo deixar passar.

eles são diferentes da gente.

e antes que isso soe como aquela frase chata de tio reclamão, eu já adianto que não é. eu não estou aqui pra dizer que no meu tempo era melhor. mas era diferente. e é difícil olhar pra um adolescente hoje, especialmente um da minha bolha, da bolha mais protegida, da bolha mais elitizada, e não notar o quanto algumas coisas mudaram em pouco mais de duas décadas.

eu lembro de mim com quinze, dezesseis anos. e quando eu lembro dessa idade, eu já estava em balada. já ficava bêbado, com aquela vergonha que não dava pra confessar pra ninguém no dia seguinte. já voltava pra casa de trem. ninguém perguntava muito. ninguém ficava neurótico. tinha um nível de confiança no mundo que hoje, olhando pra trás, parece quase ingênuo. mas era real. as pessoas iam, vinham, se viravam, e a maioria chegava em casa inteira.

e os adolescentes daqui já estavam, em sua maioria, na casa dos dezessete. ou seja, eu já fazia coisas muito piores ainda mais novo do que eles são agora. mas o curioso é que, mesmo assim, eu olhava pra cena e via outra coisa.

porque sim, teve bebida na festa. muita. e quando digo muita, é muita. eles ficaram bêbados de um jeito que me surpreendeu, não pela quantidade em si, mas pela forma como reagiram a ela. teve gente chorando, achando que a amiga ia morrer. teve desespero. teve crise. teve aquela coisa de adolescente que nunca viveu o limite e que, quando vive, não sabe muito bem o que fazer com ele.

e foi aí que algo me chamou atenção. porque na minha época, com idade menor, com bebida em quantidade parecida, a gente também passava mal. mas tinha uma certa normalidade nisso. era ruim, mas era esperado. tinha amigo que segurava, tinha amigo que sabia o que fazer, tinha um conhecimento meio coletivo de como atravessar aquilo. hoje, eu vi uma turma que parecia estar enfrentando aquilo pela primeira vez, em um nível de pânico que não combinava com a fase.

e aqui eu não tô julgando ninguém. eu acho, na verdade, que esse pânico todo diz mais sobre nós, sobre os adultos que criamos essa geração, do que sobre eles. a gente cresceu com mais autonomia, e por isso aprendeu a se virar mais cedo. eles cresceram com mais cuidado, e por isso, quando o mundo aparece de repente, eles não têm muita prática pra lidar.

meu irmão, o pai do menino, ficou agitado a noite inteira. e olha, é estranho ver meu irmão preocupado com uma festa em casa, com convidados conhecidos, com horário marcado, com todo tipo de proteção montada em volta. porque eu sei muito bem das coisas que ele já fazia na adolescência, em idades em que esses adolescentes daqui ainda eram crianças. e eram coisas bem mais arriscadas do que qualquer coisa que tenha acontecido aqui hoje.

é como se a gente tivesse aprendido com a própria juventude e, em vez de transmitir a liberdade que tinha, transmitido só o medo que veio depois.

eu acho que tem várias razões pra isso. a primeira é que o mundo mudou. as cidades estão diferentes. as preocupações são outras. o noticiário é mais brutal, o acesso a informação é maior, os pais hoje sabem de uma quantidade de coisas que poderiam dar errado que os nossos pais simplesmente não sabiam. isso não é defeito deles, é o resultado de uma exposição muito maior ao perigo do que existia antes.

e a segunda razão, que eu acho ainda mais importante, é que as relações com tecnologia mudaram. quando eu era adolescente, celular era um aparelho. hoje, celular é uma extensão da pessoa. é onde a vida acontece. é onde se namora, se sofre, se desconecta, se conecta de novo. essa juventude tem um acesso a tudo, o tempo inteiro, que a gente, nos nossos quinze anos, nem sonhava em ter. e ao mesmo tempo, talvez justamente por isso, ela tem menos vontade de sair da segurança da própria casa. porque a vida inteira já está ali, no aparelho. sair é quase um esforço a mais.

eu vi muita coisa hoje. vi adolescente dançando. vi grupinho de canto, mais quieto, mais entrosado em conversa. vi celular sendo usado o tempo todo, em quantidades que me deixaram com uma vertigem leve. vi também o caos do desespero quando a bebida cobrou e ninguém soube exatamente o que fazer.

e a sensação que eu tive, no fim, foi meio agridoce.

porque por um lado, eu fico aliviado. fico feliz que essa geração esteja mais protegida, que tenha menos exposição a algumas coisas que a gente teve, que cresça com um cuidado parental mais presente. mas por outro lado, eu fico pensando no quanto eles podem estar perdendo. no quanto a liberdade que a gente tinha, com todos os seus riscos, também construía adultos diferentes. nós aprendíamos a nos virar mais cedo, a tomar decisões idiotas e arcar com as consequências, a errar mais bonito porque era cedo pra errar. eles, hoje, talvez estejam aprendendo tudo isso mais tarde. talvez aos vinte e cinco, talvez aos trinta, quando o mundo já não é mais tão gentil com o erro.

eu não sei dizer o que é melhor. acho que ninguém sabe. cada geração vai precisar acertar as próprias contas com o tempo em que viveu. mas é interessante perceber, agora aos quarenta, como as duas pontas da minha vida estão claramente desenhadas. atrás, uma juventude que tinha liberdade demais. à frente, uma geração que talvez tenha liberdade de menos. e a gente, no meio, tentando entender qual seria o equilíbrio que ninguém alcançou ainda.

a festa terminou. e eu fiquei pensando que eles vão crescer, vão arrumar seu jeito próprio de viver. e vão olhar pra trás, daqui a vinte e cinco anos, e provavelmente vão dizer que naquela época tudo era mais simples. é assim que funciona. cada geração olha pra própria juventude com uma nostalgia meio enviesada, e julga a próxima com um filtro que só faz sentido pra quem está olhando de fora.

eu fiz aniversário ontem. estou fazendo essa observação com a tinta dos quarenta ainda fresca. e talvez seja exatamente por isso que essa festa me marcou de um jeito que não me marcaria em outra fase da vida. porque pela primeira vez, com clareza, eu não me reconheci naqueles adolescentes. e isso é estranho, mas é honesto. eu fui um deles. eu fui um adolescente caótico, querendo escapar da casa, esperando o sábado pra explorar o mundo de um jeito que hoje seria considerado imprudente. mas eu já não sou mais. e eles, mesmo na mesma fase em que eu estive, já não são como eu fui.

a gente cresceu, eles crescem, e a vida segue inventando juventudes diferentes a cada vinte anos. e talvez seja só isso, no fim. cada geração inventa o jeito que consegue de atravessar essa fase difícil que é ter quinze, dezesseis, dezessete anos. e os adultos do entorno, como eu hoje, ficam de longe, com uma cerveja na mão, observando, sem entender direito, mas torcendo, no fundo, pra que dê tudo certo.


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