
eu acordei hoje e decretei, comigo mesmo, que não ia sair de casa.
foi um decreto firme. interno, silencioso, mas firme. domingo, frio, sem nenhuma obrigação aparente no calendário. eu tinha planejado mentalmente um dia inteiro de sofá, talvez algum filme, talvez nada, talvez só ficar existindo em câmera lenta, do jeito que domingo pede pra gente fazer.
adivinha o que aconteceu.
saí. não só saí, como saí no horário mais cruel possível pra esse tipo de coisa. três e meia da tarde. exatamente o horário em que domingo atinge o seu auge sagrado. aquele horário em que o sofá te chama com voz humana, em que a sonequinha depois do almoço se transforma em compromisso espiritual, em que qualquer movimento é uma agressão pessoal. três e meia da tarde de domingo, e eu no carro, levando minha mãe pra igreja, porque o meu sobrinho, filho do meu irmão do meio (não o da festa de ontem), ia fazer a primeira comunhão.
e o engraçado é que eu nem entrei na missa. nem minha mãe entrou. eu estacionei, ela saiu do carro, deu uns passos, e por algum motivo a gente acabou ficando do lado de fora, esperando. mais de uma hora. parado. no frio. sem nenhum tipo de plano alternativo. só esperando a missa acabar pra cumprir o que era esperado da gente naquele dia.
e foi durante essa espera, com tempo de sobra pra pensar, que eu cheguei numa observação que eu acho que vale registro.
existe uma categoria de obrigação na vida adulta que ninguém te ensina a reconhecer. ela não é a obrigação clara, escrita, contratual. não é o trabalho, não é a conta, não é o boleto. essa categoria é outra. ela é silenciosa. ninguém combinou ela com você. mas todo mundo entende, sem precisar conversar, que ela existe e que você vai cumprir.
eu chamo de obrigação moral, porque não tem outro nome. é aquela coisa que você faz porque é entendido, em algum nível subterrâneo da convivência humana, que você tem que fazer. levar a mãe na igreja em dia de evento da família. comparecer em casamento de primo distante. ir no velório de conhecido de longa data. ligar pra parabenizar tia que mora longe. ir no aniversário do amigo de infância com quem você não conversa há cinco anos. nada disso é obrigação no sentido formal. ninguém vai te processar se você não for. mas todo mundo, em silêncio, anota.
e eu fico pensando o quanto a gente passa a vida atendendo a esse tipo de chamado, sem nunca questionar de onde vem. porque ninguém te explicou que era obrigatório. mas, em algum ponto da infância, da adolescência, da vida em família, você foi sendo treinado pra reconhecer essas situações e responder a elas com automaticidade. tem coisas que a gente faz por reflexo cultural, mais do que por escolha consciente.
e olha, eu não estou aqui pra dizer que essas obrigações são ruins. tem muita coisa boa nelas. tem cuidado, tem afeto, tem manutenção dos laços. minha mãe ficou feliz que eu levei ela. eu fiquei feliz, no fundo, de poder levar. mesmo de mau humor por dentro, mesmo com o sofá me cobrando arrependimento à distância. tem uma dimensão dessas obrigações que sustenta a estrutura afetiva de uma família, e essa parte eu reconheço.
mas tem a outra dimensão. e essa outra dimensão é a que custa.
porque o tempo que eu passei do lado de fora da igreja, esperando, foi um tempo que eu não estava em nenhum lugar. nem dentro da missa, nem em casa. eu estava em uma espécie de limbo afetivo, cumprindo um papel que não era exatamente meu, em um cenário que eu não tinha escolhido, em um horário que eu sabotaria com violência se pudesse. e essa hora, que eu passei ali fora, parado, é uma hora da minha vida que eu não vou recuperar. ela foi gasta. e foi gasta porque a obrigação moral, mesmo silenciosa, mesmo nunca declarada em voz alta por ninguém, tinha um peso que eu, automaticamente, escolhi atender.
a gente faz isso o tempo todo. e a gente nem sempre percebe.
eu fico pensando o quanto a vida adulta seria diferente se a gente conseguisse, com algum nível de honestidade, separar as obrigações reais das obrigações morais. as obrigações reais são as que têm consequência prática se você não cumprir. as obrigações morais são as que têm só consequência social, e mesmo essa, na maioria das vezes, é mais leve do que a gente imagina. ninguém ia odiar minha mãe, ou me odiar, se eu tivesse dito que não daria pra eu levar ela hoje. provavelmente ninguém ia nem comentar. mas dentro da gente, da nossa cabeça, da nossa criação, da nossa memória afetiva, existe um peso enorme em descumprir.
e esse peso, eu acho, é onde mora um dos maiores cansaços da vida adulta. porque a gente fica cumprindo obrigação moral o ano inteiro, atendendo a esses chamados invisíveis, e a soma desses gestos pequenos vai consumindo tempo, energia e vontade, sem que a gente perceba que está sendo consumido. quando você se dá conta, semestre inteiro virou um agendinha de favores não pedidos, presenças não desejadas, deslocamentos que você fez por gentileza estrutural, sem que ninguém tenha exatamente cobrado.
eu acho que existe uma certa coragem em começar a peneirar isso. em escolher, com mais cuidado, quais dessas obrigações realmente fazem sentido pra mim, e quais são só ruído cultural. minha mãe na igreja hoje, sim. faz sentido. ela é minha mãe, eu cuido dela, eu quero cuidar dela. mas o tempo todo ficar disponível pra todo evento, pra todo deslocamento, pra todo gesto que seja considerado bonito do ponto de vista da família ampliada, não. tem hora que eu também preciso me lembrar que eu existo como pessoa, e não só como filho, irmão, tio, padrinho, marido, parente em geral.
eu voltei pra casa depois de levar ela, no fim. minha mãe acabou indo pra casa do meu irmão pro lanche, e eu não fui. ela queria ir, e isso eu respeitei. mas eu não tinha nenhuma intenção de prolongar a tarde de domingo num evento social que eu já não queria estar desde o começo. fui pra casa. cheguei no sofá com a sensação meio agridoce de quem cumpriu o que era esperado e, mesmo assim, conseguiu salvar uma parte do dia pra si.
e isso, no fundo, é o que eu acho que a gente devia tentar fazer mais. cumprir o que importa, escolher o que sustenta, e ter coragem de soltar o resto. mesmo que pareça pequeno, mesmo que pareça egoísta, mesmo que pareça que a gente está se omitindo de algum dever invisível.
porque a verdade é que esse dever invisível, na maior parte do tempo, foi escrito por pessoas que já não estão aqui. por gerações que tinham outras prioridades, outras estruturas, outras dores. e a gente segue cumprindo, automaticamente, como se aquilo fosse parte da nossa identidade, quando na verdade é só herança que ninguém perguntou se a gente queria receber.
domingo é pra descansar. era pra ser pra descansar. eu cumpri o que era importante, deixei o resto, e voltei pro sofá. e olha que tarefa difícil isso é. olha que ato de equilíbrio. uma vida inteira aprendendo a fazer isso, e ainda assim, todo domingo, a balança é refeita do zero.
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