
segunda-feira. dia lento, dessa lentidão que começa antes mesmo de você levantar.
acordar foi difícil. de verdade, daquele jeito em que cada movimento parece exigir uma negociação interna. sair da cama, decidir que dia é hoje, lembrar que tem coisa pra fazer, encarar o frio que ainda insiste em ficar. eu queria poder dizer que isso virou exceção na minha vida, mas seria mentira. tem segunda que entra inteira e tem segunda que entra meio fragmentada, em câmera lenta, e essa de hoje foi do segundo tipo.
a fábrica tinha funcionária nova começando. tinha aquela energia de primeiro dia, de apresentação, de ajustes. e tinha a outra ponta. a funcionária aqui de casa, aquela que cuida das coisas diárias, pediu as contas. e nem apareceu pra avisar pessoalmente. essas duas notícias chegaram juntas, em horários próximos, uma chegando e uma indo, e me fizeram pensar em quantas pessoas circulam pela nossa vida sem que a gente se dê conta do tamanho que ocupam. até elas saírem. e quando saem, sobra um espaço estranho que a gente nem sabia que existia.
mas o que realmente marcou o dia foi outra coisa.
o john não foi pra fábrica hoje.
e isso fez uma diferença que eu, sinceramente, não tinha previsto. o john trabalha comigo. ele faz parte do meu dia útil há tanto tempo que virou parte da estrutura. quando ele está, eu nem reparo que está. é como respirar. ninguém repara que está respirando, até a respiração travar. hoje ele não foi por motivos próprios, motivos legítimos, motivos que não importam muito explicar. mas o efeito da ausência foi imediato. eu senti a diferença em cada hora do dia. nas conversas que eu não tive. nas perguntas que eu não fiz. nas decisões pequenas que eu tomei sozinho e que normalmente teriam sido divididas, mesmo que de forma rápida, em uma troca casual de olhar ou de comentário.
e foi aí que eu reparei em uma coisa que eu acho que muita gente vive sem perceber.
a gente é treinado, desde criança, a sentir a presença. ela é o estado padrão. quando alguém está, a gente convive, conversa, divide. mas a presença, justamente por ser tão constante, tem essa característica meio cruel de virar invisível com o tempo. a gente para de ver quem está ali todo dia. é uma forma de economia mental, talvez. uma forma do cérebro liberar atenção pra outras coisas, partindo do princípio de que o que está, vai continuar estando.
só que isso tem um preço. e o preço é que a gente só se dá conta de quanto alguém importa quando essa pessoa, em algum nível, falta. pode ser uma ausência pequena, como a do john na fábrica hoje. pode ser uma ausência grande, como as ausências definitivas, daquelas que não voltam. mas em qualquer escala, o mecanismo é o mesmo. a gente sente a falta, e nesse momento, alguma coisa interna acende. uma luzinha que reconhece, com atraso, o tamanho de quem não está.
isso eu vivi de formas mais difíceis ao longo do último ano e meio. perdi meu pai no começo do ano passado. e até hoje, em momentos completamente imprevisíveis, eu me pego sentindo falta de coisas que eu nem sabia que ele fazia. um jeito de comentar uma coisa qualquer. uma presença silenciosa em algum canto da casa da minha mãe. uma forma de estar que era tão constante que eu tinha parado de ver. e quando essa presença sumiu de uma vez, todos esses pedacinhos invisíveis ficaram, de repente, gritando em volume alto. tarde demais pra eu poder dizer pra ele, em vida, que eu reparava sim, mesmo sem reparar.
e a zara, mais recentemente. eu já escrevi sobre ela aqui. mas vale dizer de novo. uma cachorra que ocupava um espaço tão silencioso na casa, com aquele rabo de ventilador, com aquela maneira de ser, que eu nem reparava o tamanho da presença dela até ela não estar mais. e desde que ela se foi, tem horas do dia em que eu sinto o vazio dela em pequenos detalhes. um lugar que ela ocupava, um som que ela fazia, uma forma específica de cumprimento que era só dela. tudo isso voltou pra mim só depois, em forma de saudade. e isso me dói até hoje, sem aviso, em momentos aleatórios.
essa coisa de só sentir falta na falta é um dos grandes paradoxos da vida humana. e ela acontece em todas as escalas. na ausência de um dia, como a do john hoje. na ausência permanente, como as que eu mencionei. na ausência das pequenas presenças cotidianas, como a da funcionária da casa que pediu as contas e que, eu já sei, vai fazer falta de mil formas que eu nem antecipei ainda.
e o que eu fico me perguntando, em dias como hoje, é se tem alguma forma de a gente furar esse mecanismo. de a gente conseguir reconhecer a presença enquanto ela está. de a gente conseguir, em algum nível, olhar pras pessoas que estão na nossa vida hoje, agora, com a clareza que normalmente só chega depois que elas se vão.
e eu acho que tem. acho que existe esse exercício. ele é difícil, mas existe.
ele se faz nos detalhes. em parar, por um segundo no meio de um dia comum, e olhar pra alguém que está ali. e reconhecer, internamente, que essa pessoa também é finita. que essa rotina também vai acabar. que tudo isso, esse arranjo todo de presenças que parece tão estável, é, na verdade, frágil como qualquer outra coisa. e que reconhecer essa fragilidade não é mórbido. pelo contrário. é o que dá valor real ao momento que está acontecendo agora.
eu, ainda hoje, vou ver o john quando ele chegar em casa. e vou fazer um esforço pra reconhecer ele de um jeito diferente. não com discurso, nada de drama. só com um olhar mais demorado. com uma atenção um pouco mais real. com a percepção, recém-acordada, de que essa presença que eu costumo ter por garantida não é garantida. é só presença. e presença, no fundo, é um privilégio temporário que a vida nos empresta, sem nunca dizer por quanto tempo.
a falta ensina. mas ela ensina tarde. e por isso, talvez, seja sempre tempo de tentar aprender antes. tentar olhar pras pessoas enquanto elas ainda estão olhando de volta. tentar dizer coisas enquanto elas ainda podem ouvir. tentar não chegar no momento da ausência precisando pagar a conta atrasada de tudo o que a gente não percebeu enquanto estava perto.
é difícil. eu não vou conseguir fazer isso o tempo todo. ninguém consegue. mas hoje, pelo menos hoje, eu reparei. e talvez essa percepção seja o pequeno tesouro que essa segunda-feira lenta veio me trazer, sem que eu tivesse pedido.
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