
teve uma vez que alguém escreveu sobre se reconhecer no abismo. eu não lembro quem, não lembro onde, mas a imagem ficou. e hoje ela voltou, porque foi mais ou menos ali que eu passei o dia. no abismo. ou pelo menos olhando pra dentro dele, de uma beirada perigosa.
o trabalho está me afundando de novo.
e eu escrevo “de novo” com um cansaço específico, porque essa não é a primeira vez. eu já conheço esse buraco. eu já estive aqui antes, mais de uma vez na vida. e tem uma coisa estranha em cair num lugar conhecido. por um lado, assusta, porque você reconhece o cheiro, reconhece a sensação, reconhece o peso descendo nos ombros do mesmo jeito de sempre. por outro lado, e isso eu só fui perceber hoje, tem um pequeno apoio escondido nesse reconhecimento. porque se é um lugar onde eu já estive, então é um lugar de onde eu já saí. mais de uma vez. e isso, por menor que pareça, é alguma coisa pra segurar.
mas hoje eu cheguei numa pergunta diferente. uma que me assustou um pouco, pra ser honesto.
e se chegou a hora de largar o que, talvez, me mantém de pé?
porque o trabalho é isso pra mim. é o que me dá estrutura, é o que me dá sustento, é o que organiza meus dias, é o que me define em boa parte. é a base. e a gente não questiona a base, normalmente. a gente confia que ela está ali pra segurar, e segue construindo por cima. mas hoje, no meio do peso, eu me peguei olhando pra essa base com uma desconfiança que eu nunca tinha tido coragem de ter. e se ela não estiver me segurando? e se ela estiver, na verdade, me afundando, e eu só chamei de sustento porque era mais fácil do que encarar a possibilidade de soltar?
esse “talvez” é a parte mais difícil. porque ele admite a dúvida. seria mais simples se eu tivesse certeza. se eu pudesse dizer “isso me faz bem” ou “isso me faz mal” e pronto, decidido. mas não é assim. é um talvez. talvez me mantenha de pé. ou talvez eu só tenha medo de descobrir que não me mantém, e que tudo o que eu chamo de firmeza seja só costume de carregar.
porque a gente confunde essas coisas com uma facilidade impressionante. confunde peso com âncora. confunde estar preso com estar firme. confunde a muleta com a perna. e vai vivendo em cima dessa confusão por anos, às vezes por décadas, com medo de testar o que aconteceria se largasse. porque largar é apavorante. largar significa admitir que talvez você tenha construído parte da sua vida em cima de uma coisa que não era tão sólida quanto parecia.
e olha, eu não estou dizendo aqui que eu vou largar nada. eu não tomei decisão nenhuma. seria irresponsável, e até desonesto, escrever que hoje eu descobri o caminho e amanhã vou virar a mesa. não é isso. a vida real não funciona com viradas tão limpas. o que aconteceu hoje foi mais sutil. foi só a coragem de fazer a pergunta. de olhar pra uma estrutura que eu sempre tratei como intocável e admitir que ela merece ser questionada. que talvez tenha virado um abismo confortável só porque é conhecido. que talvez o familiar tenha virado prisão sem eu perceber.
e fazer essa pergunta, sozinha, já é um movimento. porque enquanto eu não fazia, eu só afundava sem entender. agora, pelo menos, eu afundo entendendo. e entender é o primeiro passo de qualquer mudança que um dia venha a acontecer. ninguém muda o que não enxerga. e hoje eu enxerguei, mesmo que ainda não saiba o que fazer com o que vi.
mas eu não quero terminar esse dia no fundo do abismo. e não é porque eu queira fingir que está tudo bem, porque não está. é porque eu sempre escrevi pra mim mesmo, antes de qualquer outra coisa. esse diário é meu, é a minha conversa comigo, é o lugar onde eu coloco o que preciso ouvir. e o que eu preciso ouvir hoje é que eu confio.
eu confio no futuro, mesmo sem enxergar ele com clareza agora. eu confio em mim, na minha capacidade de atravessar isso, porque eu já atravessei coisas piores e estou aqui, escrevendo, respirando, fazendo aniversário de quarenta há poucos dias depois de um ano que tentou me derrubar de todas as formas possíveis. eu confio nas minhas decisões, mesmo as que ainda não tomei. eu confio no meu discernimento, nessa capacidade que eu tenho, mesmo no meio do caos, de saber separar o que é medo do que é verdade, mesmo que essa separação demore.
porque o abismo, eu já aprendi, não é o fim. ele é uma fase. ele é um lugar de passagem, por mais que pareça definitivo enquanto a gente está dentro dele. e a diferença entre quem fica preso e quem atravessa não é a ausência do abismo. é a esperança de que existe outro lado. eu acredito que existe. eu sempre acreditei, e foi essa crença que me tirou de todos os buracos anteriores.
então hoje pesou. hoje o trabalho me afundou. hoje eu olhei pra coisas que eu tinha medo de olhar e fiz perguntas que eu tinha medo de fazer. mas hoje, também, no fim do dia, eu escolho confiar. que vai passar. que eu vou entender. que a resposta, seja ela qual for, vai chegar na hora certa. e que eu vou ter o discernimento pra reconhecer ela quando vier, e a coragem pra fazer o que precisar ser feito.
talvez seja largar. talvez seja segurar com mais firmeza. eu ainda não sei. mas eu confio que vou saber.
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