dia 140/365.



eu acordei pensando em uma coisa simples: não dá pra simplesmente deixar o peso de ontem de lado.

ontem foi pesado. eu olhei pra coisas que eu vinha evitando olhar, fiz pergunta que eu vinha evitando fazer, escrevi com uma honestidade que eu nem sempre tenho coragem de ter. e quando você faz isso, no dia seguinte, você não acorda zerado. seria muito conveniente se fosse assim, mas não é. você acorda carregando. um pouco mais leve do que ontem, talvez, porque pôs pra fora. mas ainda carregando.

e tinha trabalho pra fazer. tinha bastante trabalho. coisa séria. coisa que precisava ser resolvida hoje, sem prorrogação, sem desculpa, sem dia magnífico amanhecendo pra me dar fôlego. era hoje. e eu, no fundo, já tinha desistido um pouco antes de começar.

sabe aquela sensação? aquela de olhar pro que precisa ser feito e já sentir que não vai dar? eu acho que todo mundo conhece isso, mesmo quem não admite. é uma forma sutil de rendição que a cabeça faz antes mesmo da gente tentar. ela calcula o cenário, mede a energia disponível, e conclui, em milissegundos, que não vai sobrar pro fim. e quando ela faz isso, você começa o dia já pesando mais do que precisava.

mas o engraçado é que eu fui mesmo assim.

não porque eu acreditei. eu não acreditei. fui porque não tinha alternativa. porque a vida adulta às vezes não te dá a opção de não ir. ela só te dá a opção de ir cansado ou de ir descansado, e ir cansado quase sempre é a opção realista.

aí eu vou contar como foi, sem entrar em detalhe nenhum, porque o detalhe importa pouco e cada um que ler vai poder colocar o próprio cenário aqui. mas o dia foi correndo. um problema atrás do outro. uma negociação que não fechou, outra que parcialmente fechou, uma terceira que ficou pra depois. cada coisa exigindo um pedacinho a mais de mim, e eu sentindo a energia ir embora em tempo real, como uma bateria descarregando enquanto você ainda precisa do celular.

e aí, em algum momento da tarde, eu percebi uma coisa estranha.

eu tinha chegado mais longe do que eu achava que ia chegar.

aquela conta principal, a mais importante, a que era inegociável, eu paguei. as outras, em parte. uma sobrou, e ficou pra outra hora. e quando eu fui somar mentalmente o que eu tinha conseguido fazer, eu fiquei meio surpreso comigo mesmo. porque a previsão, lá de manhã, era que nada ia dar certo. e o que aconteceu foi que quase tudo deu. com uma ponta solta, mas com o essencial resolvido.

e essa sensação me lembrou uma imagem que eu acho que vale partilhar aqui.

é a imagem de alguém correndo uma corrida muito longa, muito mais cansado do que devia estar, com a certeza absoluta de que vai abandonar antes do fim. a pessoa corre olhando pro chão, contando os passos, negociando com o próprio corpo a cada metro. ela não tem nenhuma expectativa de ganhar. ela só está tentando não desistir. e aí, do nada, em uma curva qualquer, ela percebe que está chegando na reta final. olha pros lados e percebe que ultrapassou várias pessoas. cruza a linha de chegada e descobre que terminou em terceiro lugar.

é mais ou menos isso que aconteceu hoje. e é mais ou menos isso que acontece com frequência na vida adulta. a gente subestima muito a própria capacidade de atravessar. a gente acredita demais na voz interna que sussurra “isso aqui é grande demais pra mim”. e essa voz tem um problema sério, que é falar com a confiança de quem sabe das coisas, quando na verdade ela só está com medo. medo é convincente. mas medo raramente é verdade.

eu acho que tem muita gente lendo isso aqui hoje e se reconhecendo. tem muita gente que vai começar o dia amanhã com uma certeza pesada de que não vai dar conta. e o que eu quero deixar como pequeno presente desse texto é o seguinte: tenta mesmo assim. não porque você acredita. nem precisa acreditar. tenta porque a alternativa é desistir antes do tiro de largada, e isso, eu posso falar com alguma autoridade, é uma das piores formas de viver. desistir antes nunca foi resposta. é só medo se passando por planejamento.

e talvez você não termine em primeiro lugar. talvez nem em terceiro. mas talvez termine. e terminar, em uma corrida em que você jurou que ia abandonar no primeiro quilômetro, já é uma vitória que merece comemoração silenciosa. mesmo que ninguém esteja aplaudindo. mesmo que a sua medalha seja só uma cama macia, uma janta tranquila, uma noite de sono possível.

a vida não cobra perfeição. a vida cobra atravessamento. e atravessar com uma ponta solta é muito melhor do que não atravessar com tudo arrumado. essa é uma das verdades mais difíceis de aceitar pra quem foi criado, como eu, com aquela ideia de que tudo precisa estar redondo, em ordem, no controle. demora a entender que a vida adulta é, em grande parte, sobre conviver com pontas soltas e seguir vivendo mesmo assim.

eu cheguei em casa hoje cansado. mas era um cansaço diferente do de ontem. ontem o cansaço tinha um sabor de derrota, daqueles que pesam mesmo quando você nem fez muita coisa, porque é o cansaço da cabeça questionando tudo. hoje o cansaço era outro. era o cansaço de quem usou o dia. de quem correu, mesmo desconfiando, e descobriu que tinha mais fôlego do que sabia. esse tipo de cansaço é bom. é um cansaço que reorganiza alguma coisa por dentro.

e por hoje, é isso que eu carrego. a memória pequena de ter chegado, mesmo achando que não ia chegar. e a esperança meio teimosa de que amanhã, se vier mais um desses dias, eu vá lembrar dessa corrida e correr de novo. mesmo desconfiando. mesmo cansado. mesmo com a voz interna inteira gritando que não vai dar.

porque já deu antes. e dar antes, no fim, é a única prova real que a gente tem de que pode dar de novo.


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