
eu acordei hoje com aquela sensação meio rara de que as coisas estavam, finalmente, começando a entrar no eixo.
ontem eu já tinha sentido um pouco disso. tinha conseguido atravessar um dia exigente e terminar com a maior parte das coisas resolvidas. e hoje, na continuação, mais uma ponta solta foi se ajustando, mais um peso foi saindo das costas. esse tipo de dia tem um sabor específico. é o sabor da continuidade dando certo, de uma coisa puxando a outra, de você começar a confiar, com alguma cautela, que a maré pode estar virando.
e eu confesso que, em algum momento da manhã, eu pensei: parece que vai dar tudo certo.
essa frase, eu juro, eu mal terminei de pensar e o universo achou engraçado. porque foi mais ou menos nessa hora que eu fui lembrado, por terceiros, de uma situação que eu vinha conseguindo, com algum esforço, manter no canto da cabeça. uma situação que envolve uma pessoa. uma pessoa de mau caráter. uma pessoa que, por interesse próprio, sem nenhum tipo de pudor, decidiu atacar alguém que eu amo.
eu não vou entrar em detalhe, porque o detalhe importa pouco e expõe demais. mas o que importa é o efeito que essa lembrança teve em mim. porque a sensação de leveza do começo do dia foi rapidamente substituída por uma outra. uma sensação que muita gente conhece e que poucos sabem descrever direito. é a sensação meio nauseante de lembrar que existem pessoas, no mundo, que são genuinamente capazes de fazer mal. não por engano, não por descuido, não por desinformação. por escolha. por cálculo. por ganância.
e isso, talvez, seja um dos choques mais difíceis da vida adulta.
porque a gente é criado, em casa, na escola, na convivência inicial, com a ideia de que a maioria das pessoas é boa, ou pelo menos neutra. que mau caráter é exceção, é caso isolado, é coisa de personagem de filme. e aí, em algum ponto da vida, em algum momento que ninguém te avisa, você descobre que não é bem assim. você descobre que existe gente que faz mal de propósito. que existe gente que, pra ganhar uma vantagem qualquer, está disposta a passar por cima de quem for. que existe gente que dorme bem à noite mesmo depois de magoar, prejudicar, atacar. e descobrir isso é descobrir uma camada da humanidade que a gente preferiria não ter conhecido nunca.
a pior parte, pra mim, nunca foi quando essas pessoas me atacaram diretamente. quando o ataque é em mim, eu reajo, eu me defendo, eu sigo em frente. essas coisas a gente, com o tempo, aprende a metabolizar. mas quando o ataque é em alguém que eu amo, especialmente em alguém que já passou por demais nessa vida, isso pesa de um jeito completamente diferente. mistura raiva com impotência, e essa mistura é, talvez, um dos sentimentos mais sufocantes que existem. você quer proteger, mas tem ferramentas limitadas. você quer fazer justiça, mas não pode fazer com as próprias mãos. você quer gritar, mas o silêncio, na maioria das vezes, vai ser mais útil do que qualquer grito.
e aí vem a pergunta de verdade. a única que importa nesse tipo de situação.
como atravessar isso sem virar igual?
porque a tentação é grande. ela é fortíssima. a tentação de retribuir, de buscar vingança, de alimentar dentro de si o mesmo tipo de veneno que a pessoa do outro lado parece ter como combustível. mas eu já vi, mais de uma vez, o que acontece com quem segue esse caminho. quem combate maldade com maldade, no fim, acaba se parecendo com aquilo que tanto odiava. é como se a raiva fosse contagiosa, e a única forma de não pegar essa doença fosse manter alguma distância dela, mesmo quando você está bem no meio do conflito.
eu acho que existe uma forma de manter a humanidade da gente intacta, mesmo enfrentando alguém que claramente não tem a dele. e essa forma, eu juro que não tem mistério, é a fé.
e eu falo fé no sentido amplo. cada um vai ter o seu nome. eu chamo de deus. outros vão chamar de universo, de justiça divina, de carma, de lei natural. o nome importa menos. o que importa é a crença de que tem uma régua maior do que a do tribunal humano. que existe uma forma de acerto de contas que não passa por você. que cada um, no fundo, carrega o que faz. e que essa carga, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço que ninguém escapa.
e quando você acredita nisso de verdade, alguma coisa muda. não no problema externo, infelizmente. ele continua lá, do mesmo tamanho. mas no problema interno, sim. porque você para de carregar uma responsabilidade que não é sua. você para de achar que precisa ser você o instrumento da justiça. você confia que a parte que você não vê está sendo feita, em paralelo, por uma mão muito maior do que a sua. e essa confiança alivia. ela libera energia. ela permite que você cuide do que está ao seu alcance e solte o resto, que nunca foi seu pra carregar mesmo.
eu acredito que vai dar tudo certo. e não digo isso com aquela ingenuidade de quem ainda não foi atravessado por dor de verdade. digo com a calma de quem já foi atravessado e ainda assim acredita. essas duas coisas, que parecem contraditórias, na verdade andam juntas. quem nunca sofreu acredita por inocência. quem já sofreu e acredita do mesmo jeito, acredita por escolha. e a fé que vem por escolha, depois de provada, é diferente. é mais densa. é mais firme. é mais difícil de derrubar.
eu não sei como esse caso específico vai terminar. não tenho controle sobre isso, e eu já parei de fingir que tenho. o que eu tenho é confiança no processo. confiança na justiça que vai além da humana. confiança em uma forma de cuidado que vem operando na minha vida há muito tempo, e que não vai me abandonar agora. essa fé, no fim, é o que eu carrego pra dormir hoje.
e talvez esse seja o convite mais honesto que esse texto pode fazer pra quem está lendo. se você está enfrentando alguém que parece mais forte, mais cruel, mais determinado a te ferir do que você é a se defender, não se desespere. e principalmente, não se contamine. mantém o teu jeito. mantém o teu peso. confia que o que tem que vir, vem. e que o que tem que cair, cai. não pelas tuas mãos, e ainda bem. porque a justiça das tuas mãos sempre vai ser limitada. a justiça das mãos maiores não tem limite e não tem pressa.
a vida cobra. ela cobra de todo mundo. e quem age com maldade, mais cedo ou mais tarde, recebe a fatura inteira. enquanto isso, a gente segue. fazendo o nosso, vivendo o nosso, acreditando que o nosso lado vai prevalecer. não porque a gente é melhor, mas porque a gente está alinhado com algo maior. e isso, no fim, é o que sustenta qualquer batalha que valha a pena travar.
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