dia 142/365.



eu tenho um texto no meu primeiro livro, as marés do meu ser, que se chama montanha-russa. ele fala basicamente sobre isso, sobre a vida ser feita de altos e baixos, e sobre como a gente, depois de um tempo, aprende a parar de lutar contra esse movimento e começar a aceitar ele como parte do funcionamento natural das coisas.

eu reli mentalmente esse texto hoje, sem precisar abrir o livro, porque essa semana foi exatamente isso. uma montanha-russa em tamanho real.

teve dia em que eu olhei pro abismo. teve dia em que eu acreditei que tudo ia desabar. teve dia em que coisas que pareciam impossíveis se resolveram de um jeito que eu nem consegui explicar direito. teve dia em que eu enfrentei lembranças de gente sem caráter. teve dia em que eu me lembrei, com susto e com gratidão, de que existe gente boa no mundo. e teve dia, esse, que foi sexta, que conseguiu, no mesmo período de vinte e quatro horas, condensar mais ou menos todos esses extremos juntos.

de manhã ainda tinha resíduo da injustiça que apareceu no dia anterior. aquela coisa que mexe com a gente, que fica circulando na cabeça, que pede atenção mesmo quando você já decidiu que vai entregar pra deus. à tarde, em paralelo, mais coisas dando certo, mais peças se encaixando, mais sinais de que essa fase difícil pode estar, finalmente, começando a ceder. e à noite, pra completar o pacote, uma mudança no programa tradicional de sexta que terminou virando outra coisa, completamente diferente do que costuma ser, e que me arrancou observações que eu vou registrar com algum carinho aqui.

porque o jantar de sexta, que sempre acontece na casa da minha mãe, hoje migrou. saiu da mesa de sempre, da sala de sempre, da rotina de sempre, e foi pra um clube. mais especificamente, foi pra um restaurante que o meu irmão do meio agora tem dentro de um clube aqui da região. e foi nessa mudança de cenário que o dia mostrou que ainda tinha alguns trunfos guardados pra mim.

a música estava irritantemente alta.

e quando eu digo irritantemente, eu quero ser preciso. não era alta no sentido de animada. era alta no sentido de agressiva. daquele volume em que você não consegue ter conversa, em que você não consegue pensar, em que seu corpo inteiro fica numa tensão involuntária pedindo pra sair dali. e o pior é que o cantor, somando ao volume, também não estava ajudando muito. era daquele tipo de show que faz você medir, em tempo real, sua paciência social.

e foi nesse meio termo, entre o querer sair e o estar obrigado a ficar, que veio uma das melhores partes da noite. a nica e a mãe dela estavam no jantar. e a nica eu conheço desde que ela era criança e eu adolescente, então a gente tem aquela liberdade antiga de quem cresceu junto. ela olhou pro cantor, olhou pra mim, e foi inevitável. a gente começou a lembrar de uma história que ela mesma viveu há um tempo. ela tinha dado uma festa em casa, daquelas grandes, com música ao vivo e tudo. contratou um cantor pra animar. e o cantor, em algum momento da noite, começou a se mostrar tão ruim, mas tão ruim, que ela tentou pedir educadamente pra ele parar, e ele não parou. continuou cantando. e ela, sem saída, sem coragem de criar constrangimento na frente dos convidados, fez a única coisa que considerou possível. chamou a polícia. pra acabar com a própria festa. dela. na casa dela.

ela se lembrou dessa história ali, no meio do jantar, porque o cantor que estava se apresentando era, segundo as próprias palavras dela, tão bom quanto o da festa dela. e talvez também tão alto quanto. e a partir desse momento, em vez de sofrer, a gente começou a se divertir. ficamos conjecturando, em voz baixa, como poderíamos discretamente tropeçar em algum fio importante. um cabo aqui, uma tomada ali. nada criminoso. só um pequeno acidente coreografado em benefício da humanidade. a gente não fez, claro. mas o exercício mental durou um tempo bom da noite e foi, sinceramente, o que tornou o jantar suportável.

a vida tem dessas. uma hora você está olhando pra dentro de um abismo existencial, refletindo sobre fé, sobre maldade humana, sobre o sentido das coisas, sobre o peso de fazer quarenta anos em um ano em que perdeu gente que amava. e três dias depois você está numa mesa de jantar, com uma amiga que você conhece desde a infância dela, planejando estrategicamente como sabotar o som de um cantor sem ser pego.

essa é a montanha-russa. esse é o desenho da vida adulta na minha experiência, e provavelmente na de muita gente lendo isso aqui. ninguém vive só na profundidade. ninguém vive só no riso. a gente alterna, às vezes em horas, entre esses dois polos. e a saúde, eu acho, é justamente em aceitar essa alternância em vez de querer ficar fixo em um único modo.

tem gente que me fala, com uma frequência maior do que eu gostaria, que eu deveria gravar mais vídeo, deveria documentar mais a minha vida, deveria postar mais. dizem que daria uma novela se eu mostrasse o cotidiano direito. e eu sempre rio, porque acho um pouco exagero. mas hoje, refletindo sobre essa semana, eu admito que talvez tenham um ponto. não sei se daria novela. acho que novela talvez seja um exagero. mas que dá pano pra manga, isso dá. todo dia dá. e dá pano sem eu precisar inventar nada, sem eu precisar criar trama. a trama vem sozinha, com data e horário marcado, sem aviso prévio.

de um lado, isso é cansativo. cansa muito ter uma vida que oscila tanto, em tantas direções diferentes, em tão pouco tempo. de outro lado, e essa é a parte que eu acho que vale registrar com algum carinho, é também o que dá textura. é o que faz com que sexta-feira nenhuma seja igual à outra. é o que garante que eu nunca, em nenhum dia desses cento e quarenta e dois que eu já escrevi aqui, tenha precisado inventar conteúdo. a vida me entrega. eu só vou registrando o que vem.

fui embora quando minha mãe quis ir embora. eu sempre espero ela, é uma combinação silenciosa nossa, e funciona. o john estava comigo, como sempre. essa é outra das coisas boas da minha vida, e que eu acho que não dou crédito suficiente. eu e ele funcionamos quase em sincronia. se eu falo que quero ir embora, ele já está no carro. se ele dá o sinal, eu também. essa cumplicidade não foi construída em um dia, e ela vale ouro num mundo em que quase ninguém entende quando você precisa sair.

cheguei em casa e não fui dormir cedo, porque dormir cedo é uma coisa que eu, sinceramente, não sei fazer. eu adoro o silêncio da minha casa. eu adoro os meus cachorros me cumprimentando como se eu tivesse passado uma semana fora. eu adoro o momento em que ninguém precisa de mim, em que eu não preciso tomar decisão nenhuma, em que o mundo, por algumas horas, simplesmente para de exigir. esse é o meu intervalo. esse é o meu refúgio. e eu valorizo demais essa paz porque sei o quanto ela é rara, e quanto ela alimenta tudo o que eu consigo fazer nos outros horários do dia.

a vida é engraçada. quase sempre.

basta o ouvido sobreviver. e ter uma boa amiga do lado pra rir com você das absurdices do mundo.


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