dia 144/365.



domingo. dia da preguiça. dia oficial em que eu não me cobro absolutamente nada, e olha que eu me cobro o suficiente nos outros seis pra equilibrar.

de noite eu resolvi cozinhar outra sopa. pra minha mãe, pro john. depois do sucesso do brodo do dia anterior, eu estava confiante. confiante demais, na verdade. e a vida adora corrigir esse tipo de confiança.

eu segui tudo direitinho. tudo. ingrediente certo, ordem certa, tempo certo. na panela ficou linda. tinha caldo, tinha cor, tinha consistência. eu olhei aquilo e pensei: gente, eu cozinho. eu sou bom nisso. eu vou dar aula.

aí eu coloquei na tigela.

e o caldo, simplesmente, não compareceu.

eu não sei explicar pra onde ele foi. desapareceu no caminho entre a panela e a tigela, como se tivesse evaporado por decisão própria. o que sobrou foi uma coisa que eu, sendo generoso, posso chamar de macarronada cremosa. sendo honesto, era uma sopa que desistiu de ser sopa no último minuto.

a minha mãe olhou pra tigela dela e foi imediata. antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, antes que eu pudesse fazer qualquer disclaimer, antes que eu pudesse pelo menos pedir um voto de confiança, ela soltou:

que linda a macarronada.

eu não tive tempo de reagir. fui pego no flagrante, com a concha na mão, ainda em negação. e ainda tentei. eu juro que tentei. comecei a remexer a tigela, raspando o fundo, dizendo coisas como “calma, se pegar mais aqui de baixo eu acho que tem um pouco de caldo”. não tinha. não dava. o caldo simplesmente não existia. eu estava tentando convencer a mim mesmo, mais do que à minha mãe.

e quem conhece a minha mãe sabe que ela não deixa passar. nunca. não tem como.

e eu fico pensando que talvez a vida seja muito isso. você prepara tudo direitinho, segue cada passo, faz com cuidado, e na hora de entregar, alguma coisa simplesmente não vem junto. o caldo evapora. o resultado não bate com a expectativa. e você fica ali, com a tigela na mão, sem entender direito o que foi que aconteceu entre a panela e o prato.

frustração é mais ou menos isso. uma sopa que virou outra coisa. um plano que saiu diferente. um esforço que rendeu um resultado que ninguém pediu. e o pior é que sempre tem uma mãe por perto pronta pra nomear o estrago em voz alta, antes mesmo de você ter chance de inventar uma desculpa decente.

a vida serve macarronada cremosa o tempo todo. e a gente, em vez de fingir que é sopa, devia fazer o que minha mãe fez. olhar pra tigela, aceitar o que tem, e dizer com a maior naturalidade do mundo: que linda a macarronada.


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