
acordei e a empresa estava bloqueada.
não é exagero literário. estava literalmente bloqueada. um daqueles entraves burocráticos que aparecem do nada, por motivo que não envolve nada que você fez ou deixou de fazer, e que de uma hora pra outra te coloca em uma situação completamente impossível de funcionar. tudo parado. as vendas online, principalmente. completamente paradas. e venda online tem essa coisa cruel: cliente não espera. cliente clica, paga, e quer o produto. se você não pode atender, ele vai pro concorrente em três cliques. e ele não volta.
eu tinha cliente esperando. tinha pedido travado. tinha gente esperando produto que já tinha sido pago. e nada saindo. cada hora passando significava cliente perdido, reputação arranhada, dinheiro voltando que nem deveria ter voltado. eu estava vendo, em tempo real, a empresa sangrar sem que eu pudesse fazer nada.
e o que aconteceu, sem entrar em detalhe nenhum, foi uma combinação de pequenos descuidos do sistema, somados a uma falta de bom senso de quem aplicou a regra, que culminou em uma punição desproporcional ao problema. o problema, na verdade, nem era problema. era uma coisa que poderia ter sido resolvida com uma ligação, com uma mensagem, com qualquer mínimo gesto de comunicação. mas não foi. o sistema preferiu o caminho mais curto, que era o de aplicar a penalidade automática. e eu acordei pagando essa conta.
pra resolver pelo caminho certo, eu precisaria de dias. talvez semanas. talvez meses. tinha um trâmite inteiro envolvido. fotografar coisas, entrar com pedido, esperar triagem, esperar aprovação, esperar nova vistoria. cada etapa com seu prazo, sua fila, sua dependência de funcionário que ninguém sabe quando volta de férias. enquanto isso, a empresa parada. com prejuízo diário acumulando. com cliente esperando. com gente dependendo do meu funcionamento pra ter o salário em dia.
e teve o outro caminho.
o caminho que existe paralelo, que todo mundo conhece sem nunca admitir que conhece, e que resolve em horas o que pelo certo levaria meses. o caminho que custa dinheiro extra, custa um certo orgulho interno, custa uma certa noção da pessoa que você queria ser. mas que resolve. simplesmente resolve. com uma velocidade que torna óbvio, pra quem está vendo de dentro, que esse caminho existe porque o sistema, no fundo, precisa que ele exista. é a válvula de escape do próprio mecanismo.
eu fui pelo segundo caminho. no fim da tarde, a empresa estava funcionando de novo.
e eu fiquei sentado em casa à noite, com uma sensação meio difícil de descrever. não era exatamente culpa. eu sei que não tinha alternativa real, e quem trabalha com empresa no brasil sabe disso melhor do que ninguém. esperar o trâmite oficial não é uma escolha possível quando você tem responsabilidade financeira sobre outras pessoas. mas também não era satisfação. não tinha vitória ali. tinha sobrevivência.
e é dessa palavra que eu não consigo escapar quando penso no que aconteceu hoje.
sobrevivência.
porque tem um momento, na vida adulta brasileira, especialmente na vida de quem empreende aqui, em que você descobre que o sistema é construído de um jeito que praticamente te empurra pra cinza. ele cria regras impossíveis, atribui penalidades desproporcionais, oferece prazos absurdos, e em paralelo, deixa caminhos não oficiais funcionando perfeitamente bem. quem segue só pela linha reta, na maioria das vezes, não chega ao fim do mês. quem encontra o caminho do meio, chega. e essa é uma equação que ninguém te ensina, mas que você aprende na carne, com o tempo.
e aí vem a parte mais incômoda. porque eu, como qualquer pessoa que tenha um mínimo de princípio, sempre olhei pra esse tipo de coisa de fora com julgamento. sempre achei que pessoas que recorrem a esse tipo de atalho são parte do problema. que cada um que paga alimenta o sistema. que se ninguém pagasse, o sistema ruiria. e tudo isso é verdade. mas é o tipo de verdade que só funciona em discurso de fim de semana. em terça-feira útil, com a empresa parada, com gente dependendo de você, a teoria simplesmente desaba.
e aí você descobre que não é tão diferente assim das pessoas que você julgava.
você descobre que a corrupção, no brasil, não é coisa só de quem está no poder. ela mora também nas pequenas escolhas que pessoas comuns fazem todos os dias pra simplesmente conseguir tocar a vida. ela mora em um sistema que, em vez de funcionar, te obriga a contornar. e o contorno custa um pedaço de você, todas as vezes.
eu não estou aqui pra justificar nada. nem pra denunciar nada. eu só estou registrando que, em algum dia útil de quarta-feira, eu encarei isso de frente e percebi que faço parte. não por escolha primeira, não por má-fé, mas por uma sequência de circunstâncias que me deixaram, naquele momento, sem alternativa real que não fosse o pior dos males. e que o pior dos males, no caso, era o que permitia manter tudo funcionando.
uma merda, sim. uma merda profunda. uma merda que eu não consigo lavar com discurso bonito.
mas é a verdade. e o diário, eu acho, precisa registrar verdade também. inclusive a verdade que a gente preferiria esconder. especialmente essa.
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