
a sinusite continua.
e eu preciso ser honesto sobre como eu lido com doença, porque acho que é importante que as pessoas saibam com quem estão lidando.
eu não lido bem.
nunca lidei. quando eu era menor e tinha infecção de garganta, eu estava no leito de morte. não metaforicamente. eu estava convicto de que aquela seria minha última semana. se eu tivesse o telefone de um padre eu teria encomendado a extrema unção. com endereço e horário confirmado.
hoje não é diferente. hoje eu fiz um vídeo no instagram me despedindo. falei que sentia que o fim estava próximo. distribui meus bens. a maioria pro john, inclusive a minha mãe, que tecnicamente não é um bem mas que eu inclui no inventário porque ela ia querer aparecer em algum lugar.
drama? jamais. não sou desse tipo.
contém ironia.
o engraçado, e eu reconheço o engraçado com a lucidez de quem está catarrento mas ainda funcional, é que eu nunca tive nada de verdade. nunca quebrei um único osso. nunca fui internado. nunca operei nada. minha lista de traumas médicos é, objetivamente, ridícula.
no máximo tive unha encravada.
trinquei um dedo da mão no pré. caí e abri um buraco na cabeça, tomei ponto, mas quem deu foi meu pai na própria clínica, então nem sei se conta. um labrador me atropelou na casa da minha avó, eu caí e abri o queixo, meu pai resolveu ali mesmo, sem hospital, sem drama administrativo. é o benefício de ser filho de médico. a emergência vem até você.
e mesmo com esse histórico clínico que uma criança de oito anos teria vergonha de chamar de grave, eu sigo sendo a pessoa que distribui bens no instagram quando fica resfriada.
a sinusite está aqui. eu estou aqui. os dois coexistindo com o nível de dignidade disponível, que hoje não é muito.
amanhã deve melhorar. ou não. mas se não melhorar, o john já sabe onde estão os documentos.

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